sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

A esperança na UTI

O marcador de página caiu, desmarcando aquele poema que eu iria mandar.
Aquele poema perfeito, não muito hermético, não muito descarado.
Fechei a aba com os poemas do Manoel de Barros (com certeza, um dos maiores presentes que se pode apresentar a alguém).
Joguei fora o álbum ideal pra se levar numa viagem.
Dormi pela primeira vez sem que a última coisa que eu fizesse fosse imaginar como seria.
Sonhei que não pagava a passagem nem pro Ryan Gosling.
Por mais que eu ache que fique muito bem de rosa, não comprei aquela blusa.
Não quis mais saber o que significam as horas iguais.
Não importa mais que carta sai no tarô.
Caminhei sem música alguma. Perdi o número das voltas mesmo assim.
Parei de procurar uma boa charge.
E chorei (Uma amiga um dia me disse que "chorar é a última coisa que se faz. Porque chorar é desistir").
Sem resposta, sem eco, sem sinal, a imaginação respira com muita dificuldade.
Tudo acaba. Até o que vai por último, vaticinou o médico.

Serie Goya -  John Baldessari

quarta-feira, 25 de novembro de 2015

Lord knows it will be the first time

Desde pequena eu "sofro" de uma peculiaridade. E ela é tão traiçoeira que parece linda. Mas esse é exatamente o artifício dela, um eufemismo que esconde a metáfora de si mesma.

É que eu tenho uma imaginação por demais fértil. O que não seria mal, se não se adicionasse a ela uma expectativa excessivamente positiva.

Das minhas memórias mais antigas, lembro de estar de mãos dadas com a minha avó, caminhando ao longo de uma avenida e pegando, aqui e ali, embalagens de picolé no chão. E a cada embalagem, uma esperança, seguida de uma decepção e de outra esperança e assim sucessivamente.

Começa como miragem: eu vejo a coisa ao longe e sempre, sempre imagino a coisa mais linda. Aquele brilho prateado lá do outro lado da calçada, visto daqui, só pode ser um lindo pingente que eu - que sorte - vou pendurar naquele colar e que vai ficar lindo. E termina sempre comigo perdendo a esperança no último passo até aquilo, percebendo só naquele último instante que era apenas um papel de bala.

E isso se repete pela minha vida inteira, como um castigo grego.

Mais recentemente, inclusive, percebi que faço isso com quase tudo, em quase todas as coisas da vida. Os desejos, as relações, os sonhos, os projetos. Mas como num castigo grego, eu nunca aprendo. E hoje eu fiz isso, de novo. E nessas horas dá uma vontade enorme de não dormir, pra não ter que acordar e ter esquecido, e o castigo acontecer de novo e de novo.

Eu queria acertar, nem que fosse uma vez.

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Óia ela aí de novo

Tem um filme inofensivo chamado Campo dos Sonhos. E uma vez que a gente assiste ele, nunca mais vai esquecer aquela frase:
"Se você construir, eles virão"
Sei lá se o diretor quis ser mais metafísico do que foi.
(Pensando bem, ele pode inclusive ter sido o precursor a utilizar o milharal como cenário para dezenas de temáticas das mais bizarras).
Bom, o fato é que sempre que lia ou lembrava dessa frase, ela retumbava, pra mim, assim:
"prepare e ela virá".
"Ela", pra mim, é a circunstância.
Mesmo com relação ao filme, pra mim, o  que o campo veio trazer nunca foi um jogo, mas antes, a circunstância, a experiência, a vivência no tempo e espaço de um acontecimento em que todos estavam ali com um acordo que só é possível em sonho: um local onde o coração, a intuição, o silêncio, o presente e o passado convivem sem que ninguém duvide. Sem medo, atendendo ao pedido do que pode não fazer sentido num primeiro momento, mas que traz um significado para os que comungam daquela experiência.
Nos pequenos campos da minha pequena fazenda, já tem um tempo, eu escuto os chamados.
É sempre a mesma coisa. Não faz sentido, mesmo assim, eu arranjei as sacolinhas, juntei todas as coisinhas, roupinhas, brinquedos, sapatinhos, o balde, a cômoda e o bercinho.
Ficam ali, meio atravancados, meio atravancando, esperando.
E como toda espera, a gente tem os momentos de desconfiança, de fé, de dúvida. E como em toda espera, a gente sempre dá mais uma chance.
Então, hoje, ela chegou, de novo.
É nova, mas é velha. E quando ela chega a gente reconhece e as coisas parecem fazer sentido.
Um pouco de sentido, ali, no meio dessa bagunça toda.



terça-feira, 23 de dezembro de 2014

Frances, haaaaaaaaa!

Escutei uma coisa sobre livros, um dia: que eles só realmente chegam em nós no momento em que estamos preparados pra eles.
Finalmente, hoje eu vi Frances Ha.


E parece que hoje, ao assistir, eu chorei e ri tudo que guardei por muito, muito tempo. Não porque o filme fez isso, mas porque eu e o filme nos olhamos (como Frances olha no espelho).
Nunca soube onde colocar tudo, ainda não sei.
E muito da energia e da inércia que me consomem é que me fazem me paralisar e me mover, assim, mesmo, nesse desconexo.

"Com 27 anos você está velha"


Existe um script de vida que todos seguem, e como naquela experiência dos macacos com a escada, mesmo depois de não ter mais choque ou balde de água na cabeça, todos batem no macaco que quando tem fome vai até o cacho de banana. É pressuposto que ninguém mais pegue a banana.

Porque sim, porque não, porque é, porque que tem que ser.
Mas o que fazer com tudo que somos vivendo no meio de todos?
No que se agarrar?
Se agarrar?


E nesse espaço entre tudo que eu posso ser, tudo que eu queria e tudo que eu imaginava, bom, minimamente, de um modo ou de outro, a gente precisa ter um caminho. Não pra se caber. Mas para poder não ter que sacrificar tudo que se é. Pra não sacrificar o que de melhor temos.


Frances teve que se enquadrar?
Acho que no fim do filme, a cena final, que inclusive explica o nome do filme, está a resposta: Não, não vamos enquadrar Frances. Ela não cabe nessa caixa, não tem caber. Mas de uma forma de outra, estamos aqui e fazemos um acordo pra estar da melhor forma.



domingo, 7 de dezembro de 2014

Metade de mim


Porque quando a gente decide ter esperança, não abre a porta só pra ela, mas também para a decepção. Então, é saber que se vai rir mas também chorar.

E a aposta leva todo mundo junto. E isso é ao mesmo tempo, responsabilidade e injustiça. É como incentivar as pessoas a irem a um passeio que pode ser ótimo, mas que demora muito a chegar.

Então, todo dia eu tenho que pedir força e pedir perdão.

E um pouco de sorte. Por favor, um pouco de sorte.