quinta-feira, 24 de julho de 2014

Não é você, sou eu.

"Como as pessoas lhe tratam é o karma delas, o modo como você reage, é o seu karma."
 Wayne Dyer

Eu creio que o momento do ensinamento é semiótico. Existe um incômodo provocado pela relação entre signo e sentido, dentro e fora de nós. No momento em que estou numa situação de relação com uma dificuldade, imediatamente, é a frase de Wayne Dyer que me surge. E ela está aqui, inquieta e bombeante, como um segundo coração, a pressionar meu peito. E me faz - bendita semiótica, de novo - pelo contato com o outro, ter a oportunidade de me fazer melhor.

Duas das coisas que me incomodam sobremaneira:
1) O sujeito agir de forma irracional mesmo sabendo, tendo todos os fatos. Piora, quando ele é consciente, capaz, letrado, inteligente. Multiplica de horror, quando ele desconsidera tudo isso contra até a si mesmo, que em tudo mais na vida, age com extrema racionalidade;
2) O sujeito fazer o 1 mesmo sabendo que isso vai desencadear em sofrimento de outra pessoa. Piora quando ele simplesmente opta por nem questionar a possibilidade da existência do outro e das consequências sobre ele. Porque uma coisa é prejudicar a si, direito natural e acoplado a outro, o chamado livre arbítrio. Mas despejar no outro a inconsequência dos próprios atos, pra mim, é demais.

E eis aí meus karmas, meus amigos.

Acabei de dizer a mim: há 15 anos atrás  estava eu às voltas com uma situação assim mesmo. Naquele tempo isso já me doía pelos mesmos motivos (1 e 2). Mas naquele tempo, à procura de justificativas, existia aquela que ainda recebe muito cafuné de vovó: a juventude. A juventude que existe pra isso, pra errar e aprender.

Eu sei, eu sei que não somos totalmente racionais, eu não sou, pasme. Mas faz parte do respeito que eu tenho comigo e com todos, que eu me lembre sempre de ser o mais observador possível , que eu ilumine com a luz que eu tiver, o mais possível os meus caminhos, para que eu faça o melhor de mim, passo a passo. De modo que meu passo seguinte cuide de não apagar meu passo anterior e assim por diante, porque é preciso, por uma questão de amor próprio e ao outro, que sejamos o mais justos possível. A evolução é o maior presente que existe e eu não quero desapontá-la por motivos fúteis como passar a perna em mim mesma, como se "não estivesse ninguém olhando". Para mim, isso não é só um motivo de vergonha, isso é um desrespeito com a evolução. Errar não, errar é muito humano, mas escolher o erro porque sim, porque eu não quero fazer o trabalho duro de acender a luz, não!

Então eu sempre fui essa pessoa. Antes, eu não perguntava e já dizia "olha, é isso que está acontecendo". E, claro, ninguém quer ouvir o que está acontecendo, as pessoas procuram por outras pessoas que tendem a dar as respostas condizentes com as perguntas que elas tem.  O resultado não poderia ser outro e eu perdi vários amigos por dizer "o que estava acontecendo". Eles me evitavam porque, óbvio, ninguém quer olhar pra pessoa que desmascara nossos planos. Ninguém quer diante de si o retrato de sua fraqueza.

Aí, eu comecei a só responder quando me perguntavam. O resultado continuava sendo o mesmo, porque a questão continuava a mesma: se você quer se enganar, ok, mas não tente ME enganar com uma história que não para em pé nem em puro concreto.

Mudei novamente, e o que tenho feito até agora é fugir. Abster-me de refletir a imagem que as pessoas evitam, para tentar manter as amizades. Um processo ruim e doloroso para mim. Porque fugir, pra mim, é sintoma de covardia. O sentimento é de ter que vender armas pra ficar vivo na guerra.

Mas eis que essa frase surge de novo: como eu reajo é o meu karma. É a minha incapacidade que grita. A incapacidade de não fazer efeito, de ver que as pessoas, que a vida, tem uma matemática que trata o erro como material tático tal qual como trata o acerto. É a minha incapacidade de lidar com o fato de que as pessoas são capazes de ser seu próprio pombo enxadrista, infinitas vezes. É a minha incapacidade de entender que o erro vai acontecer para sempre, com ou sem o ambiente propício e porque sim, porque o erro, se não for escolha, será para sempre uma faceta do dado, sob a mesma ação de causalidade de todos os outros lados. É a minha incapacidade de entender e aceitar que mesmo a gente tomando nota e conta de cada item, o resultado nunca será, de fato, sem dúvidas, apenas a soma de seus produtos. Sempre haverá que se ter espaço para tudo virar, a qualquer momento.  É a minha incapacidade de lidar com o indefinido.
O indefinido, o inesperado, o acaso, o inexplicado, o não natural, o incoerente.
É a minha incapacidade de aceitar que o homem sou eu.  E que a vida, a vida é travessia mesmo.

(E só agora, nessa última frase eu entendi o que "travessia" queria dizer. Não é lugar, é verbo.

PUTZ, ROSA. Gratidão, Karma.)

2 comentários:

Escafandrista disse...

Se me permite o reparo, eu diria, pela leitura do texto (lindo, por sinal), que seu problema não é com o indefinido, mas com a sem-vergonhice alheia.

rOsI disse...

Retornou do fuuundo do mar o escafandrista!
(obrigada pelo elogio ao texto) bicho, eu ainda estou paralisada pela dúvida, mesmo. É até mais fácil entender que é a sem-vergonhice. Entender, to tentando entender...