sábado, 26 de janeiro de 2013

Arthur, amor lindo, amor eterno


Todos têm rituais para as mudanças. Ou para marcar momentos importantes. Marcar o corpo, pra mim, é um desses sinais visíveis de algo importante.

Daí que quando tive um filho, voltou a ideia de uma nova tatuagem. Eu estaria celebrando o maior marco na história da minha vida.

Não sei para outras pessoas, mas pra mim, a tatuagem carrega a dualidade da responsabilidade: ao mesmo tempo diz da importância de se escolher e da necessidade de se lidar com a escolha, já que ela (a tatuagem), no geral, não sai com tanta facilidade. Mas isso é exatamente o que me fascina na tatuagem: ela marca, visivelmente, definitivamente, ao revés de quase tudo – o tempo, a idade, a sociedade...

Pesquisei por desenhos. E nada me servia. Não era uma frase, não era um símbolo ou uma flor ou um animal. Não era colorido, nem preto e branco. Achava que era cansaço, deixava a tarefa da escolha para outro dia, mas, de novo, nada me satisfazia. Numa última tentativa, voltei ao inicio, tentando fazer uma espécie de briefing da nova tatuagem, imaginando o que ela deveria ter, o que ela significaria, o que ela marcaria, o que responderia.

De repente, então, eu entendi. Eu não encontrava um desenho porque eu não precisava. Porque eu já estava tatuada. E de tantas e tais formas que eu nunca imaginei que pudesse estar.

Meu filho veio ao mundo através de uma cesárea. Os tempos estão evoluídos, sim, e pelo que pude perceber, se ficar uma cicatriz, ela será muito sutil. Mas o que eu não vejo eu sinto: nas bordas do corte, há uma dormência levíssima que não passa, como se aquele pedaço jamais mesmo pudesse ser meu novamente. Os quadris se alargaram e, por mais que se emagreça, a circunferência jamais será a mesma. Os peitos são maiores, mas menos tonificados, vazios do leite que secou.

Mas todos esses traços marcados em mim não suplantam o que é talvez a maior marca de todos os tempos: a existência do filho. Ver, descolado de si um pedaço que é também você, é a maior tatuagem que se pode fazer. Por vezes, o vínculo e o amor tornam-se tão contundentes que tenho a impressão de que até minha alma esteja marcada.

E diante de tamanho registro, um traço na pele, de repente, me soa tão fátuo quanto um bocejo. Eu vivo em outra pessoa, que saiu de mim. Eu vivo em outra pessoa. Minha alma tem em si essa experiência. Essa é minha mais nova marca.

E, nossa, como ela é linda e única e diz tudo e muito mais em si.

Line Man - Mister Kha
Mais desenhos no Flickr.

2 comentários:

sobrefatalismos disse...

A minha mãe também me teve através da cesárea. O meu parto foi bem difícil.
Você é uma mãe e tanto. Eu também tatuarei o que o meu filho significa para mim, quando ele vier ao mundo.
Abraços.

rOsI disse...

ah! Quem me déra ser ser mãe que eu pareço ser!
mas acho que meu filho me ensinará a ser melhor do que eu acho que consigo...