quarta-feira, 2 de maio de 2007

"Penso onde não sou, logo sou onde não penso" - Lacan

Sempre me preocupa a questão do desejo e da substituição. Nossa cabeça é tão enormemente preparada para nossa defesa que cria simulacros absolutamente simples mas que escondem uma complexidade aterrorizante por debaixo deles.

"Lacan mostrou que o inconsciente se estrutura como a linguagem. A verdade sempre teve a mesma estrutura de uma ficção, em que aquilo que aparece sob a forma de sonho ou devaneio é, por vezes, a verdade oculta sobre cuja repressão está a realidade social. Considerava que o desejo de um sonho, não é desculpar o sonhador, mas o grande “Outro” do sonhador. O desejo é o desejo do “Outro”, e a realidade é apenas para aqueles que não podem suportar o sonho." (fonte)

E por não suportar o sonho criam-se objetos reais que na verdade são resultado dos "não pensados". Nesse sentido, mesmo Lacan está de acordo com Freud ao identificar no objeto flagrantes das faltas primordiais ou das pressões a que o indivíduo está submetido.

Depois que li o post mais recente do Amanuense, me perguntei se é a maldade que leva a dita mãe a enterrar seu filho morto ou não. Pode muito bem ser o desejo. Tem-se como muito simples e solidificado o fato de a maternidade ser o grande mar a sobrepor-se natural, pacífica e justificadamente sobre a consciência do ser. Esquece-se de um aspecto também natural: essa mãe humana, fêmea como todas as outras da espécie, tem 46 cromossomas e com eles, a tirania do inconsciente (até hoje não comprovada nos outros animais). Ela deve responder a si e aos outros, mas algo a fez decidir-se por si e não por outros. Não estou aqui justificando atos de auto-preservação a todo custo, muito menos quando o custo é a extinção da vida. Estou apenas me perguntando se não se deve, em algum momento, entender que o homem deveria ser entendido a partir do entendimento de sua linguagem. Nesse caso, antes de pejorativizar suas ações deveríamos tentar entender seus signos, símbolos e significados.

10 comentários:

Ludmila disse...

Puta tema árido. Mas coloco aqui o que poderia colocar no outro blog. Sim, lobas podem matar sua cria em estado de stress. A natureza é amoral. Entre a sobrevivência de uma cria recém nascida e uma fêmea em idade de procriação, que pode parir mais dezenas de crias, o institinto preserva a fêmea. Nós somos seres morais, portanto, não nos satisfazemos com a crueza da natureza como as lobas o fazem. Não sermos lobos nos dá vantagens e desvantagens diante daquilo que, para a natureza, é a realidade. Todos pagamos preços. Provedores e crias. Acho inclusive que do ponto de vista da maternidade / paternidade, os argumentos são um amontoado de bobagens. Depois de nascida a cria vira filho e o instinto de preservação torna-se o que há de mais forte naquele ser humano. Talvez um pai ou uma mãe realmente não consiga entender motivações como dessa moça que enterrou a filha. Puta tema árido, hein?

enquanto dá disse...

Mas note, a moça que enterrou o filho JÁ ERA mãe, já tinha parido aquilo que ia enterrar. Da mesma forma a mulher que jogou a menina na Pampulha. O que explica então, elas terem se abdicado mesmo JÁ SENDO pais e mães?
Pergunto se o fato de a mãe não querer a cria não é tão justificado quanto o de querê-la...

Ludmila disse...

O que coloquei é justamente que ser pai e mãe, emocionalmente falando, é um processo, uma contrução. Qualquer ser em estado de stress, de depressão, de falta de perspectiva pode, através de seu instinto de preservação, tomar medidas que em um primeiro momento nos parece injustificável. E que esse ato, mesmo tendo um fundo, um porquê e, portanto, uma justificativa, baseada nesse instinto, tem suas consequências indeléveis, inclusive de fundo emocional. Ou seja, para nós pode até ser justificável, mas nem por isso facilmente compreensível.

Escafandrista disse...

Será que eu deveria parar de falar de assuntos que não conheço, como no caso das lobas? Melhor não. Perderia chances enormes de aprender coisas novas. Concordo com a Ludmila em parte. Ser pai é uma ficção, ou se quiserem, um processo, uma construção. Tá certo, depois de construído, já era, somos meio escravos do que criamos. Para a mãe, sei não, a mulher não é a mesma depois que tem filho. Parece-me que não é necessária a construção ou ela é tremendamente facilitada pelo instinto.

enquanto dá disse...

Nunca pare de falar Pedro, por favor! :) E, poxa, a gente é que perde porque você é o que tem mais condições de falar aqui sobre ser pai :D

Escafandrista disse...

Já disse: ser pai é uma ficção e acho que é daí que advém aquelas piadinhas como "pai é quem cria" ou "pai é quem registra". Uma ficção deliciosa e muito enriquecedora, mas, enfim, uma ficção. Para não perder o fio da meada, queria voltar ao final da postagem: "Nesse caso, antes de pejorativizar suas ações deveríamos tentar entender seus signos, símbolos e significados". É justamente aí que mora minha curiosidade. O que aquela criança simbolizava para a mãe e seu namorado? Como essa inversão/subversão/perversão ocorreu?

Ludmila disse...

Bom, Pedro escafandrista ;-) acho que a sua pergunta é uma dos pontos cruciais da história. COMO mãe e pai chegam num estado de pressão/medo/depressão que transformam um bebê no PIOR a ponto de tomar uma medida, no mínimo, difícil como a que foi tomada. Eu sinceramente não conheço a resposta. :-) Agora, sobre as mães, sabia que um dos causadores da famosa 'depressão pós-parto' (que pode ser gerada por inúmeros processos) é a pressão da sociedade, principalmente na mãe, para que ela **ame** profundamente aquele bebê imediatamente? A coisa não acontece assim e enche as mães recentes de culpa e dor. A maternidade também é uma contrução. :-)

Escafandrista disse...

E realmente é uma coisa frustrante, até mesmo para os pais. Eles querem fazer o melhor, mas a porcariazinha rebentando de chorar não vem com manual de instruções e a gente acaba metendo os pés pelas mãos.

savio disse...

Caros companheiros, o instinto animau ainda está presente nos átos humanos, estes estão sendo testados continuamente nesta sociedade estremamente segregada, voltamos as primordes dos sentimentos humanos, o de sobrevivência que que está acima de qualque outro sentimento...

Crônicas de Julieta disse...

Se somos onde não pensamos, resta-nos pensarmos sobre o ser num divã, ouvindo um sujeito desejante. E que seja, preferencialmente, FreudoLacaniano. =) Amei teu blog! Seguindo já!