segunda-feira, 9 de junho de 2014

Nada é "apenas" quando tudo é sentido

Sempre quando escuto alguém dizer que algo "é apenas uma piada" ou que "isso não tem nada a ver com a verdade ou a realidade", eu respondo que nada é "apenas". E que tudo, absolutamente todos os comportamentos que replicamos são culturalmente aplicados e com isso, culturalmente aceitos.

A cultura é construída e  impingida da mesma forma: através da repetição. Mas engana-se quem entende que isso é feito claramente, explicitando-se os valores como um ditado. Os valores vão sendo passados através dos costumes, do lazer, do cotidiano. Isso quer dizer que, sim, valores são introduzidos e mantidos através da literatura, das artes e claro, através dos meios de comunicação.

A série Mad Men, por exemplo, traz isso muito claro ao mostrar como o hábito de fumar foi quase que completamente inserido na sociedade através da Tv e do cinema. Fumar que, aliás, passou a ser um hábito entre as mulheres através dos anúncios de cigarro em vários veículos de propaganda, mas não só a propaganda direta, mas a indireta, com o cigarro sendo usado por estrelas e pessoas de "prestígio".

A série Mad Men traz o cotidiano de uma agência de propaganda
 no meio do século passado.
A cultura dos meios de massa sempre vendeu mais que produtos. Isto porque os produtos não são vendidos apenas como soluções de problemas. O consumo precisa acontecer durante todo o ano e por muitos anos para que os produtores se sustentem. Por isso, o investimento não é só em produtos melhores mas em "estilos de vida de consumo". Desta forma, as sopas rápidas por exemplo, não são somente comidas que levam menos tempo para serem preparadas, elas "servem" à "pessoas ocupadas que não tem tempo a perder".

Mas este estilo de vida teoricamente está em todo lugar. Ele existe, mas não exclusivamente. O que quer dizer que ele precisa ser mantido. Porque - e essa é outra coisa que é vendida no mesmo pacote - nós não temos a dimensão desse estado e não sabemos até que ponto estamos "todos sem tempo a perder". Então esse conceito começa a aparecer em todos lugar também: nos jornais, nos filmes, nos livros. E segue a produção de mais coisas que suportam este conceito. E isso vale para a maior parte do que conhecemos, inclusive e principalmente, nossos valores. O rosa e o azul como cores de gênero, por exemplo (mas isso é tema para outro texto).

Ontem eu fui apresentada a uma série nova, chamada Sleepy hollow. Tinha tudo para ser uma série muito boa em muitos sentidos, não fosse a enorme carga de preconceito que há, mesmo sob uma capa de "avanço", trazendo como protagonista uma mulher negra (especifiquei mais sobre num post no facebook).
Guardada lá, nas entrelinhas, mais uma produção ensinava meritocracia, supremacia branca, juízo prematuro de valor. Mas, e esse é o motivo desse texto, não é sempre assim e existem exemplos de como os valores comprometidos com a humanidade podem sim, ser transmitidos de forma aberta, criativa, empática, sem cheirar à cartilha.E aconteceu numa série descomprometida, chamada Supernatural.

Dean volta até uma casa que recebe garotos "com problemas com a lei", local onde ele, um dia, também esteve. Logo ao chegar, percebe o local um pouco mais vazio do que quando ele esteve lá, e pergunta sobre a razão disso acontecer. O dono do local dá, triste, o veredito: "hoje a polícia só pensa em prender. Ninguém mais dá a chance para que alguém se recupere". Perceba: ao contrário de Sleepy hollow, a discussão aqui é no sentido de apoiar a mudança através de meios da própria sociedade que produziu a marginalização e não, cruelmente e simplistamente, reduzindo a decisão exclusivamente ao sujeito marginalizado. Lá neste abrigo, Dean encontra um garoto franzino, que usa óculos, que oferece a ele um aperto de mão um pouco frouxo. E ai segue-se uma passagem de valores feita de um modo sincero e educativo, para todos os possíveis envolvidos:


Ao notar o aperto de mão fragilizado e tímido, o que Dean, como adulto, resolver fazer? O que todo adulto deveria fazer com uma criança, para começar qualquer diálogo: ele se abaixa, para ficar do tamanho dela (note pela posição da camera que ele fica até um pouco abaixo). Em seguida ele faz uma pergunta que começa com "se" ("Se você vai ser um homem..."), porque não se pode, nem se deve, obrigar pessoa alguma a fazer o que quer que seja contra sua vontade. E depois ele pede que a criança experimente o que ele está dizendo, de forma que ele aprenda, não numa situação de stress, mas em um momento calmo e com uma pessoa que não lhe quer mal, como deve agir, não com o objetivo de se dar bem ou ser maior, mas com o objetivo de permanecer bem e sobreviver. E logo após, estória que segue.

Então o que aconteceu ali naquele episódio? Uma passagem de valores dentro de um produto de consumo. Valores que são transmitidos através da cultura.
Cultura que pode e tem, sim, o poder de ajudar na transformação dos valores, para que tenhamos pessoas melhores, mais tolerantes e respeitosas. Não é apenas um sereado. É um produto cultural feito por pessoas e para pessoas e só por isso, já é carregado de sentido.

Nenhum comentário: