domingo, 11 de maio de 2014

Deixe que venha, deixe que vá

Desde sempre, eu nunca entendi o amor que as pessoas tinham por suas mães. Eu nunca tive esse amor, não assim, do coração. Minha recordação mais remota é de minha mãe deitar-se de costas pra mim, na cama. Ou me deixar sozinha em casa e eu ter tanto medo, que batia colheres em panelas, pra fazer barulho e ela chegar, quem sabe. Também me lembro vivamente de ela amarrar meu cabelo com tanta força que me deixava a cabeça doendo. E quando ia me dar bronca, puxava ainda mais esse cabelo. Ela nunca me deu colo, nem quando eu precisava a ponto de estar explodindo de dor.

Quando eu me cortei e tinha minhas pernas sangrando como nunca e gritei pedindo que ela fosse buscar um curativo, ela virou as costas e foi embora, dizendo que com gritos eu não conseguiria nada. Quando eu briguei com meu pai e ele me deixou sem dinheiro, ela disse que não me daria nenhum tostão, que aquilo era problema meu, que eu que me virasse "quem mandou brigar com seu pai". Eu nunca soube o que era sentir saudades da comida da minha mãe. (Ah, lembrei agora de uma copias boa: ela um dia me contou histórias. Era uma só, da D. Mariquinha que tinha um quintal e uma árvore e nela um João de barro, que buscava água da piscina pra fazer sua casa. Mas também lembrei que ela tinha muito pouca paciência e nunca contava duas vezes.)

Aí, ela teve um derrame. E com ele o motivo máximo pra se inocentar de tudo, culpar a doença por tudo e me dar mais uma culpa, já que agora eu não tinha amor não só pela minha mãe, mas por uma pessoa incapacitada. Muito tempo mais tarde, ela buscava meu pão de queijo da manhã, ia comigo pro ponto de ônibus pra eu ir pro colégio, muito depois, pra ir pra faculdade. Talvez tenham sido essas suas melhores ações para comigo. Nunca me escutou de fato, nunca quis saber se eu era verdadeiramente feliz. Espanto nenhum de tudo isso. Ela não queria filhos, não queria filho algum. Conseguiu tirar todos. Eu, meu pai não deixou.

Ao longo da vida, porém, a própria vida me deu várias mães emprestadas. Lembro especialmente de uma sogra que me ajudou muito, me deu muito, em todos os sentidos. Algumas amigas mães, que, coitadas, tiveram esse papel pesado sem saber. E a própria vida mesmo, que sempre foi generosa, muito generosa. Talvez ela, sim, a minha própria mãe.

Hoje, não sei mais o quanto desse amargor é feito de mim ou do que fizeram de mim. Não sei o quanto eu sou uma mãe ruim por conta do que eu sou, ou por conta do que fizeram de mim. É... porque ainda assim, eu vim a ser mãe. Com amor, sim, mas com esse amor em mim que é tão estranho e que sai da mesma forma, estranho, surdo e manco.

 Um dia eu fui saber de minhas vidas passadas e ouvi o que ouvi depois de todos em que eu fui: "aqui nesta vida, você veio sem pai nem mãe. Seu pai não é seu pai, sua mãe não é sua mãe. Você veio só." Continua sendo estranho ouvir isso. Mas isso também libertou. Eu não tenho remorso algum de não ter amor pela minha mãe. Eu não tenho remorso algum de não ter vínculo com ela, já que ela sempre fez absoluta questão de não vincular-se a mim. Infelizmente, eu sinto, não sei porquê, a dor do abandono, mas não sinto por não amar.

Mas, eu sinto algo pela minha mãe, hoje. Eu sinto, hoje, depois de anos de luta interna, (e muita terapia) uma imensa comiseração por ela. Por ela ter sido obrigada a ter uma vida que não queria, com quem ela não queria. Por ter sido obrigada a hospedar e viver com quem ela não desejava. Eu já tive muita raiva da minha mãe, eu já tentei lhe dar presentes, eu já tentei fazê-la feliz, tudo absolutamente sem sucesso. Mas hoje eu posso dar um presente a ela - ela, sem saber - e a mim, como filha, como mulher e finalmente como mãe: o perdão.

Hoje, te digo, Ruth, você mãe, como mãe, pode ir, eu te perdoo. E te recebo como uma pessoa, que como toda pessoa, é falha e que merece ser deixada em paz pra você ser o que quiser ser.


2 comentários:

Fernanda Colcerniani disse...

Nossa... Se palavras... Bem, participo do grupo Mulheres Negras com vc e vim conferir seu blog. Bjsss

rOsI disse...

Oi Fernanda! Bem vinda!