sábado, 1 de março de 2014

O sangue tem poder

Eu insisto tanto em que a gente precisa ter empatia porque, a cada dia que passa, acho que ela é a medida para que sejamos mais humanos.
Nós nunca sabemos das coisas "até que".
Hoje, mais de 25 anos depois me lembro de uma moça, parente dos meus pais, que passou um tempo em minha casa se tratando de leucemia.
E lembro exatamente dela chorando no parapeito da varanda. Uma pessoa azul esverdeada - não há figura de linguagem para uma pessoa que passa pela quimioterapia, é uma morte em vida - com um lenço branco na cabeça já sem muitos cabelos.
E só hoje, 25 anos depois eu SENTI: ela chorava não porque ela sabia que ia morrer.
Só hoje, 25 anos depois eu me lembrei: ela tinha um filho de 5 anos.
Só hoje, 25 anos depois, eu SENTI por ela. Eu senti um pouco, um átimo da dor que ela poderia estar sentindo.
E eu, como mulher, eu assumo: eu posso estar muito mais emotiva porque é possível que eu vá menstruar logo. Mas não é pejorativamente que eu agradeço infinitamente por ter, pelo menos uma vez por mês, um motivo que me faça sangrar. Sangrar sangue, sangrar memórias, sangrar dor, alegria, sangrar perdão, sangrar empatia. Ainda que tarde.

2 comentários:

cronistaamadora disse...

Nunca é tarde para que tenhamos empatia. Aliás, se mais pessoas deixassem de pensar em si mesmas e se colocassem no lugar do próximo, a humanidade não seria essa terra de justicritos e atrocidades.
Beijos.

rOsI disse...

Concordo.
Abraço!