segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

Entreaberto

As entrelinhas.
Ninguém te fala das entrelinhas. E é exatamente nelas que está o problema, que se concentra o cerne de entendimento da questão.
A gente curte e compartilha o início e o fim. O enquanto é totalmente renegado, sendo que nele, justamente, é que está a matéria que realmente significa.
Por exemplo, o filho.
Por exemplo, agora, o regime. Existe o antes, a pessoa gorda querendo se livrar dos seus excessos. E existe aquela imagem do corpo livre, depois da dieta. Mas o que é a dieta? Ah, é apenas um cardápio e uma reeducação.
Apenas.
Ah, é tudo menos apenas. Porque as pessoas até avisam que é bom ter gelatina, é bom ter leite, queijo e ovos. Avisam que sim, uma vez ou outra você pode comer um docinho.
Mas não avisam daquela sujeira entre os tijolinhos. As entrelinhas.
Não avisam que seu intestino vai mudar e com ele, todo o seu humor.
Não avisam que seu sono vai mudar, que sua disposição vai mudar, que todo o seu corpo vai mudar. Não avisam que você sente a abstinência durante e não após. Não ensinam que seu corpo chora o sacrifício, silenciosamente. Não avisam que seu corpo chora, a alma em companhia. Não avisam que quando você se pesa, a vontade que tem nem é avisar ninguém, a vontade que se tem é a de chorar. Chorar o castigo do corpo que chora em silêncio. Fazer companhia a seu corpo e à sua alma.
Eu sei que é a saúde, é.
Mas é também envergar-se diante da vida, mais uma vez. Pra caber nas roupas, pra poder viver mais tempo, para "aparecer melhor" no emprego. É uma vitória e uma derrota diluídas no copinho.
Não tenho como não lembrar de Raven-Symonè, atriz que protagonizava uma série televisiva, comentando, não sem um pouco de tristeza, que emagrecera muito mais pros outros, pro mercado, do que pra si.
Senti quando li, sinto agora, assim, cada vez mais vazia.



2 comentários:

Lori disse...

A pior parte pra mim é enfiar dois litros de água pra dentro por dia. (e ficar indo ao banheiro quazilhões de vezes pra colocá-la de volta pra fora)

rOsI disse...

Ah, beber água sem vontade, realmente...
saudade de ti, Loris!