sábado, 14 de dezembro de 2013

A vida, o luto, a luta, o descobrir, a vida.


Viver ainda é o desafio maior. Viver é ao mesmo tempo viver e ver. E a vida é dada a cada um. E a vida é sempre infinita.
Mas ser mãe foi a coisa mais extrema que me aconteceu. Equivale apenas àquele abandono que sentimos quando descobrimos que somos sós.
Hoje eu percebi isso de novo, lendo este texto, que copio aqui, pra não perdê-lo e sempre poder encontrá-lo e lê-lo novamente:

Imagine-se em um lugar inteiramente novo: pessoas desconhecidas, cheiros, gostos e sons inteiramente novos, uma língua que você ainda precisa aprender a falar e compreender, lugares misteriosos e caminhos que podem ser interessantíssimos e cheios de descobertas e aprendizado, mas você não tem a menor ideia de onde é que vão te levar.

É como uma viagem a um destino inédito: experimenta-se o susto pela novidade, pelo mistério, pelo desconhecido. Mas também a expectativa e a maravilha de olhar algo fresco, de se entregar a algo que não sabemos o que será, mas intuímos que será bonito, revolucionário, transformador.

Assim é o mergulho na maternidade, quando da chegada do primeiro filho. De repente e de um modo às vezes assustador, a vida passa a ser outra. Uma vida que desconhecemos e exige de nós muita mudança e muita coragem. É uma realidade inteiramente nova, a acontecer de modo totalmente desconhecido e misterioso, e para vive-la intensamente, precisamos nos despir de tudo o que antes sabíamos, desejávamos, planejávamos e acreditávamos, para acolher novos saberes, novos desejos, novos planos e novas crenças. Em verdade, precisamos abrir os braços, a mente e o coração não só para fazer coisas novas, mas para sermos inteiramente novas.

E se há que se abrir espaço para o  novo, é preciso deixar que o velho se vá, deixe de existir e vire poeira na estrada, recordação na memória, história para se contar. Se precisamos ser novos, é indispensável deixar que o que fomos antes se despeça, pereça, e deixe de existir.

O conceito de ‘morte’ costuma nos soar assustador, e por isso costumo receber olhares surpreendidos quando falo do ‘luto pós-maternidade’. Mas ele existe, é real e precisa ser olhado de frente. Nascem nossos filhos, e morre uma era: morrem prioridades das quais não poderemos dar mais conta, morre um certo tipo de liberdade que não voltaremos a ter (embora possamos descobrir muitas outras, tão lindas quanto ou até mais), morre uma rotina que não acontecerá mais, morrem planos que não conseguiremos mais realizar (mas nascerão outros, mais afinados com quem passamos a ser), morre um egocentrismo que não conseguiremos mais alimentar, morre o direito a nos considerarmos o centro absoluto de todas as escolhas e decisões.

A revolução pela maternidade pode ser fantástica – e quase sempre é, quando há entrega e o amor e o desejo de viver a experiência intensamente estão presentes. Mas ela é também um tanto aterrorizante, como qualquer revolução – porque traz a mudança, o novo, o desconhecido. Quando nos tornamos mães, a vida nos exige um desapego tremendo de tudo o que foi vivido antes – na verdade, quando temos um filho, a vida nos exige que nos desprendamos da pessoa que fomos até ali. E quando aceitamos fazê-lo, precisamos despedir-nos desta pessoa com muita calma, como nos despedimos de um ente querido que encerra sua jornada neste mundo – e finda esta despedida, se a vivenciarmos sem culpas e sem pressa, talvez possamos permitir verdadeiramente que ela morra para dar lugar ao novo.

A  maternidade é, em última instância, a um só tempo um nascimento e uma morte: nasce um bebê, uma mãe e uma nova vida, e morre alguém que nos acostumamos a ser, alguém de quem gostamos por muito tempo e que em algum momento acreditamos que seríamos para sempre. Enquanto acolhemos um novo ser nos braços, outro está morrendo – e é preciso olhar para esta morte, acolhê-la com carinho, chorá-la o tanto necessário, nem uma lágrima a menos, sem pudores e sem remorso.

Só quem vive corajosamente e de olhos bem abertos a morte do que deixou de ser pode abrir-se de fato para o que virá. A dor existe, é legítima. E como nos partos naturais, ela não é vilã, mas companheira – quando recebida com valentia e sem subterfúgios, ajuda-nos a crescer e nos faz mais preparados para o que há pela frente, neste novo mundo misterioso que temos tanta sede de conhecer.

Esta é a dinâmica da vida: coisas acabam, para que outras comecem. Coisas morrem, para que outras nasçam. E assim acontece, também conosco: morremos quem fomos para dar lugar a quem seremos.

A maternidade, o luto e a vida nova
Renata Penna em Mamíferas

2 comentários:

cronistaamadora disse...

Ainda não experimentei a maternidade, mas penso nela como uma experiência nobre e ambígua, entre o apego e o desapego. Apego ao outro, para que, nos primeiros anos, vivamos em função do outro. Mas também desapego de nós mesmos, apesar de um não diminuir aquele que nasceu. Ambos somam.
Abraços.

rOsI disse...

Olha, acho que você acerta: nobre e ambígua. É ambas essas duas coisas com uma variância imensa em si :)
Abraço e tô adorando sua casa nova!