quarta-feira, 4 de abril de 2012

Em silêncio

The silence - Art by Anton Semenov, Russia.
Fonte: Coolvibe

É, a gente só quer gozar profundamente o momento em que se respira, fumar e tragar bem fundo até sair fumaça pelo nariz, até engasgar de tanto tossir e acordar com a garganta arranhada, com a cara amassada no espelho e duas olheiras fundas que parecem azeitonas pretas. É só, é essa profundeza que não se revela, é esse último minuto que não volta, é essa descoberta de si que vicia e nunca mais se pode voltar para o conforto do mundo dos shoppings e mulheres de papel dado, nunca mais se pode pegar o caminho de volta e fumar sem tragar, tocar o outro sem sentir o suor e o cheiro de vem de dentro, sem percorrer desesperadamente o caminho secreto.
É que às vezes a gente acerta, acredita em mim, a gente acerta e conhece o que é a plenitude de ser quem se é, e qualquer plenitude de se dividir o que não se divide. E é por isso que a gente arrisca, é por isso que a gente se arrebenta e continua e grita a plenos pulmões:
- fumar sem tragar, nem pensar!
(Biscate Social Clube)

Não estivesse grávida, hoje faria uma nova tatuagem.
Lembrei-me agora de quando o mundo se abriu pra mim quando meu professor de geometria ensinou que a forma de cálculo do volume de todos os objetos era sempre a mesma, mas, para figuras com "ponta", era só adicionar 1/3 na frente da fórmula. O espanto que senti é (perdoem-me a ousadia) da família daquele relatado por Vinícius quando, segundo ele, a poesia primeiro se lhe sorriu:
Gostaria de dar-te, Namorada, aquela madrugada em que, pela primeira vez, as brancas moléculas do papel diante de mim dilataram-se ante o mistério da poesia subitamente incorporada; e dá-Ia com tudo o que nela havia de silencioso e inefável - o pasmo das estrelas, o mudo assombro das casas, o murmúrio místico das árvores a se tocarem sob a Lua.
Porque é com silêncio e falta de verdadeira expressão, é com espanto e pasmo que só hoje decifrei e compreendi, verdadeiramente, visceralmente, um recado da vida. Fiz a fórmula ao contrário e só agora me dei conta de quantas folhas perdi em cálculos errados, cega que estava das minhas certezas. Todas as provas, todos os testes, todos os erros eu não posso corrigir mais.

As notas foram dadas, finitos os exames, mortas as letras. Mas eu posso responder a eles daqui, hoje, com o respeito de silêncio, apesar dessas palavras. Eu entendi, finalmente eu entendi. Foram necessários cubos, pirâmides e cones. Todos vieram, se apresentaram, sempre esteve tudo lá. E hoje eu os agradeço com silêncio. Porque o silêncio é a forma mais digna de se agir quando não há nada à altura do significado de uma coisa. O silêncio é a forma mais respeitosa de se retirar, de pedir perdão, de reconhecer que se é pequeno demais, indigno demais até de receber essa última lição.

Apesar de estar falando aqui, é com imenso silêncio que peço perdão a todas as figuras que se serviram para meu aprendizado. Não foi em vão. Eu aprendi. E por isso, sou absolutamente, abismada e silenciosamente grata.

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