domingo, 11 de setembro de 2011

Por um fio

Os acontecimentos históricos têm sempre um visão constituída, a divulgada e escrita e passada à frente, que é sempre dissertativa. E de certa forma, para fins de propagação é a melhor versão, já que ela tenta se compor de fatos, somente. Mas o acontecimento se passa na vida de várias pessoas, realmente, temporalmente. E no caso do acontecimento mais falado do momento, a queda das Torres Gêmeas, o mundo foi testemunha, de alguma forma, e cada um tem a sua própria história relacionada a ele.

Foi um horror, e eu me lembro de ver as imagens, pela Internet (ainda pelo portal do Terra) um ano depois de ter estado lá, de ter visto as Torres de perto. Imagino quão exponencial deverá ter sido o horror de presenciar o fato. Mas a televisão já está fazendo um trabalho de reconstrução, inclusive repetitivo, do fato. Então eu queria lembrar de outro atentado às Torres. Um atentado apreensivo, arriscado, louco, ousado, mas diametralmente oposto quanto à sua mensagem.

Philippe Petit, na década de 70.

Há mais de trinta anos atrás, Philippe Petit, um artista circense, tinha como principal atividade desafiar a si mesmo e ao mundo, atravessando distâncias pelo ar, através de um cabo de aço. Atravessou as cúpulas da Catedral de Notre-Dame, em Paris e as torres da Harbor Bridge, em Sidney, entre dezenas de outros. Logicamente, isso era proibido. Então uma boa parte do ato - já claramente digno de bravura e coragem - era a transgressão. Mas vamos falar da transgressão mais à frente.
Enquanto fazia suas travessias, Philippe era atormentado por um sonho maior, muito maior. Um sonho que foi sonhado antes mesmo de a coisa realmente existir: ele sonhava atravessar duas torres que nem haviam sido inauguradas, mas que já detinham a alcunha de serem as torres mais altas do mundo. Mas Philippe, além de teimoso, era muito convincente e não só levou literalmente à cabo sua empreitada como levou uma equipe inteira para o ajudar no que todos concordavam ser a maior e mais perigosa travessia que já tinha sido feita na história da humanidade. Depois de algumas visitas às Torres ainda em construção, valendo-se de identificações falsas, Philippe e sua equipe avaliam tudo o que consideravam necessário para a travessia. A próxima vez que ali estivessem já seria para executar o ato. E foi assim que em 07 de agosto de 1974, Philippe Petit atravessaria não uma, mas OITO vezes a distância que separavam uma e outra das Torres Gêmeas, em Nova Iorque.

Toda a história dessa aventura foi registrada num dos documentários mais maravilhosos que assisti, chamado Man on wire, do diretor James Marsh.


Man on wire, que tem um título igualmente maravilhoso e amplo em significado, é uma história que tem todos os elementos para ser uma ficção, mas miraculosamente e novamente, maravilhosamente, ela é bem real. Mas ainda assim, é um fato real com uma das maiores e mais pungentes cargas simbólicas possíveis.
E hoje, dez anos depois do ataque às mesmas Torres, essa história e aquela travessia ganham ainda mais significado.

A transgressão

Ouso dizer que essa é a maior mensagem do filme. Porque se há uma palavra na história dessa travessia que a pode definir  ela é, sem dúvida,  "impossível". Nenhuma pessoa da equipe tinha permissão para entrar na torre, nenhum deles tinha recursos suficientes para um grande aparato, nenhuma pessoa no mundo, em tempo algum tinha estado tão longe do chão, nunca houve até então uma construção erguida daquela magnitude. Ou seja, não havia nada igual ao que ia ser feito. E para todos tudo era praticamente impossível de acontecer.
Desde a sua concepção, aquela travessia era uma transgressão. Philippe estava em outro país, as Torres ainda não haviam sido inauguradas mas já eram de uma altura nunca vista, em qualquer padrão. Não havia como prever sequer qual seria o comportamento climático numa altura como aquela. E claro, tanto aquela, como todas as outras travessias, eram, em essência, proibidas por lei.
De forma que o único meio de fazer aquilo tudo acontecer era indo contra tudo. Era transgredir. E a partir do momento em que Philippe toca o cabo com o primeiro passo, se realiza, como em poucas vezes na história e na vida, o quase toque entre sonho e realidade, entre o possível e o imaginável, entre a vontade e a conquista, e tudo começa a extravasar-se a si mesmo.


Nada há de mais frágil e forte ao mesmo tempo que aquela minúscula figura entre as duas gigantes construções; Durante o filme, e de acordo com os relatos nele, parecia que as próprias construções emudeceram e contiveram o ar, junto com a equipe e as pessoas que observavam a travessia.  Parecia que o tempo parou. Diante de tamanho espetáculo, daquela luta absurda entre um Davi e um Golias ainda mais desproporcionais, tudo pareceu infinitamente menor. Diante daquele ato, uma gama imensa de atos bons e maus parecem insignificantes. E ao mesmo tempo, diante de tamanha coragem e determinação somos confrontados com o quanto podemos mais, diante da vida. E com o quanto sempre podemos mais, exponencialmente.

Hoje, sombriamente, algo como um dejà vu

 Ninguém conseguiu se decidir sobre o que fazer e o que pensar diante daquele ato (aliás é lindo, no filme, o registro do próprio policial que vai aos poucos desistindo da tarefa de prender Philippe, fazendo-o desistir do projeto,  à medida que reconhecia a grandeza, a beleza e a unicidade do espetáculo que se dava frente à seus olhos). Loucura, coragem, risco, experiência, medo, determinação, amor, dor, tudo estava ali, poeticamente registrado como se fosse um rabisco no céu. Condensado naquele minúsculo ponto a mover-se lentamente no ar, estava a própria metáfora do estar vivo.

Todos os dias, somos nós, ínfimos personagens diante da magnitude tanto do mundo físico que nos rodeia, quanto de nossas potencialidades e possibilidades. Crescer é antes de tudo, um ato de transgredir, porque significa ir de encontro a tudo aquilo que, à primeira vista, nos assusta e nos faz recuar.

Com todo o respeito a tudo e todos envolvidos na tragédia da queda das torres, eu, cá na minha insignificância, digo: não nos lembremos das torres que caíram. Elas foram destruídas e a sua ausência sofrida em nome da barbárie. Lembremos daquelas Torres intactas sob a travessia de Philippe. Essas nunca cairão, pois são do mesmo material que as que são erguidas todos os dias para suporte da luta diária da nosso sobrevivência, para suporte de nossos sonhos, para suporte do hiato quase impossível de beleza e de poesia que nos faz atravessar, cambaleantes, a história de nossas vidas.
Para aquelas torres, os aviões, os ataques, a revolta, o medo e a vingança são sempre infinitamente menores, sempre desprezíveis, sempre descartados, frente ao espetáculo de ver um homem flutuando no espaço, transgredindo todas as possibilidades conhecidas. Um homem tão absolutamente crente na vida que  desafia tudo pelo simples, único e estupendo momento de tornar o impossível possível.

 Fonte: Revista cinética
Fonte: Investigación criativa
Fotos inéditas: plantas, projetos e imagens

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