segunda-feira, 29 de agosto de 2011

O caminho se faz ao caminhar

Estou no meio de um trabalho em que viajo para fazer visitas às lojas de um cliente. Apesar de ser só em Belo Horizonte e arredores, algumas vezes no interior do Estado, essas idas são pequenas viagens. Geralmente vou acompanhada de um dos associados da empresa que detém essas lojas.

Tenho para mim que os caminhos nos trazem sempre mais que onde eles vão dar, como muito lindamente disse Antônio Machado:

Caminhante, são teus rastos
o caminho, e nada mais;
caminhante, não há caminho,
faz-se caminho ao andar.
Ao andar faz-se o caminho,
e ao olhar-se para trás
vê-se a senda que jamais
se há-de voltar a pisar.
Caminhante, não há caminho,
somente sulcos no mar.


Hoje, indo um pouquinho mais longe, um dos associados me disse uma coisa que ficou muito em mim: que nós, muitas vezes sucumbidos pela rotina, pelo medo, pela insegurança, permanecemos às vezes a vida toda num mesmo lugar. Raras as vezes ou mesmo nunca, mesmo tendo o mundo todo a disposição, nos aventuramos a tentar, por exemplo, fazer a vida em qualquer outro lugar, que não aquele em que nascemos. Nem que seja por um tempo, por alguns poucos anos. Emendei dizendo que isso era realmente engraçado, porque com o tempo, descobrimos a nossa própria capacidade de sim, poder ganhar a vida onde quer que seja, já que aprendemos a conhecer e aceitar nossas capacidades e limites.

E isso ficou em mim, porque, mais uma vez, que engraçado, eu pensei isso ontem, de uma outra forma, que na verdade, dizia a mesma coisa: a gente geralmente coloca a realização de nossa felicidade como consequência de um estado de coisas, que está sempre no futuro. Sempre só estaremos felizes quando. E aí eu pensei "poxa, mas e enquanto isso?" Porque se o quando demorar muito tempo - o que geralmente acontece - eu, teoricamente, não serei tão feliz quanto eu quero, por muito tempo. E por essa conta, o resultado não é tão positivo quanto parece ser, quando simplesmente traçamos um plano. Porque o enquanto é o que toma, na verdade, a maior parte do plano.

Apareceu uma tangente, então. Porque se eu for esperar que meus planos dêem certo pra só então eu sorrir com vontade, bem, eu estou em maus lençóis. Porque a característica primordial do plano é estar sempre à frente. E corre o risco da felicidade, daquela risada farta de contentamento, não chegar.

Por tudo isso, mesmo a vida não estando 100% - ou nem 50% do que eu almejo, como plano - eu decidi sorrir agora. Aproveitar agora, ler agora, ir ao cinema agora, beber agora, tomar o solzinho da manhã mesmo estando atrasada, agora. E ir pra onde meu dinheiro dá, hoje. Porque o amanhã mais azul pode realmente não chegar.

(mas se ele chegar, eu já estarei rindo :)

7 comentários:

Clarice disse...

outra coisa que li hoje (não lembro onde) e que tem a ver é que a vida sem problemas parece triste. quando não há um desafio, um conflito a ser resolvido, um plano a ser conquistado, nos sentimos vazios, sem razão de ser. ora, se o que dá graça à vida é justamente perseguir o plano, bora aproveitar esse "enquanto" aí. sua decisão de sorrir hoje é muito mais que "uma passada de perna filosófica" nos problemas, na verdade, acho que o que vc fez foi desvendar o grande enigma! :-D

rOsI disse...

KK, the flash! Espero que sim, espero que o sorriso seja mais forte, enquanto durem os caminhos!

Halem Souza disse...

"Sempre só estaremos felizes quando. E aí eu pensei "poxa, mas e enquanto isso?"

Fiquei pensando nessa pergunta...

Pessoalmente, nunca se deve contar com o quando (e aí concordo em parte com você).

Mas também acho que o enquanto é uma ilusão: só o passado tem existência, segundo penso. Tudo o que é está fadado a deixar de ser no próprio momento em que está sendo.

Papo de doido, né? (perdão, ainda não tomei minha xícara diária de café bem forte).

Resumindo toda essa arenga: o tal carpe diem("aproveitar agora, ler agora, ir ao cinema agora, beber agora, tomar o solzinho da manhã mesmo estando atrasada, agora") é tão ilusório quanto a eterna preparação pra um "enquanto que toma a maior parte do plano". O negócio é escolher entre as duas formas de ilusão (que, aliás, são formas válidas de se buscar a felicidade, tão legítimas quanto quaisquer outras).

Um abraço.

rOsI disse...

Adoro quando o assunto gera mais assunto e mais e mais... !
Mas pensei aqui: se o passado é o que de fato existe, eu posso tê-lo cheio de momentos, de fatos, do que se espera, do que de fé somente, do que de aguardo... Porque se o fato futuro não acontecer, eu terei pelo menos vivido mais :)

Halem Souza disse...

Aí é que está: essa ideia do "viver intensamente", do "viver mais". Rosi - e quero lembrar que sou altamente pessimista - nunca acreditei nessa ideia. A vida é contingência, apenas. E eu só acredito no acaso. E na sorte (por isso, jogo na loteria toda semana, hehehe...)

Um abraço.

rOsI disse...

Acaso e sorte me apatecem também :D

Grande abraço Halem!

Russa Malvada disse...

aaaah q texto lindo, arejado, iluminado, fofo... parece uma praia.

Aaaah e o mais legal: ele explica e encerra o nome do blog de uma forma genial. Talvez sem querer, mas acho mesmo q não.

Aaaaah, suspiro de beira de praia mais vezes.

Bjs