terça-feira, 5 de julho de 2011

O avesso de Dorian

É comum, já dizia meu amado terapeuta, que os processos demorem bem mais que os próprios acontecimentos em si. Nossa cabeça precisa separar o joio do trigo e resolver, no fim das contas, que nome, que significado dará a esse novo que ficou.

Passar pelo processo é comumente devastador. É sofrido, é visceralmente pausado e doloroso. Descascar a memória, os signos todos, desvestí-los de sua pele cinza e morta, sangra. Não percebemos, porém, que há já brotinhos em meio às cascas. É a re-significação da nossa vida. Ao avesso de Dorian Grey, debaixo do pano, o retrato toma outra forma, renascendo. E como na história, há um choque igualmente aterrador, mas com relação aos restos mortos de nossos signos.

Todo o processo gera crescimento. Nunca saberemos se a ferramenta utilizada para o trabalho foi a melhor ou a mais indicada. Mas talvez não há na vida e no tempo, concomitantemente, tamanha maravilha e tamanho horror do que levantar a cortina do quadro desse passado pela primeira vez, após todo o processo e fitar o retrato do que foi o nosso passado. Depois de tudo, a face que ele nos mostra é, pela primeira vez, crua e pura como nunca pudemos ver.

E é totalmente indizível,inominável a sensação de estranheza que ele nos causa. Após terminado o processo (ou em fins de) todas as figuras do passado olham-nos com absurda distância. Estão, finalmente, alienados de nós. E é essa distância, essa ausência de laços com o que somos hoje, o maior, o melhor e o mais hermético prêmio que podemos conseguir. É a nossa conquista.

As pernas doem, o corpo dói, o espírito tem mais silêncio. Mas a vista daqui, hoje, é infinitamente mais bela, como nunca foi.

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