sexta-feira, 13 de maio de 2011

Aquilo que realmente define o homem

Lembro-me de uma vez em que fui buscar meu Seguro-desemprego. Não o busquei de imediato e sabia que existia um limite de tempo para requerê-lo. Mas não sabia de fato quanto tempo era. A demora, dentre outras coisas, se devia ao fato de que eu achava que uma pessoa jovem, no auge de sua força e intelecto, provida de boa educação, não deveria tirar o dinheiro que deveria ser para tantos outros menos afortunados (hoje sei que esse benefício é pago por cada um de nós e não dado pelas boas mãos do Governo). E quando fui ao posto PSIU da Praça Sete e observei as filas imensas, fiquei ainda mais convicta dessa ideia. Centenas de pessoas pobres, a maioria pardas, à espera de um Seguro que iria segurar um quinto, talvez, do tempo em que provavelmente eles iriam ficar sem fundos, devido ao desemprego.

Peguei a senha, esperei o atendimento. Ao ser chamada, sentei em frente a um atendente de camisa azul. Ele pediu os documentos e fez uma verificação no sistema. Eu estava calma. Realmente não dependia daquele dinheiro, apesar de que, se ele viesse, poderia sim ser bom. Então, aconteceu uma coisa da qual eu nunca mais esqueci. Num lapso de um instante o rosto do homem se modificou.
- Senhora, eu sinto muito... eu sinto muito mesmo, mas o prazo para requerer o seu fundo era até ontem.
E ele respirou e ficou genuinamente emocionado:
- Infelizmente... infelizmente... eu queria tanto fazer com que não fosse assim... mas infelizmente, não há como mais você retirar esse benefício. Eu realmente sinto muito, eu ... queria que fosse diferente, mas não há como... Eu espero que a Senhora tenha algum outro recurso, mas olha, as coisas vão melhorar, você vai ver.

Fiquei um pouco triste, mas realmente eu não tinha mesmo a necessidade, então disse a ele que tudo bem, tudo bem mesmo, está tudo certo. Agradeci a ele que ainda balançava desesperançadamente a cabeça, com um olhar que muito poucas vezes eu vi em alguém.

Hoje, depois de passar pela situação de tentar ajudar meu pai, que tem setenta anos e já não escuta bem, a cancelar uma fatura de um cartão que ele nunca pediu e nunca recebeu, depois de ser tão absolutamente desconsiderada, percebi que o que diferencia as pessoas umas das outras, independente da diferença de classe, raça ou credo, é a capacidade de ter misericórdia. Não é nem o respeito, mas a possibilidade de se colocar, por um instante que seja, no lugar de outra pessoa e sentir o seu sofrimento.

Todo dia alguma parte da vida de alguém está em nossas mãos. E isso é real para quem quer que seja. Todos têm, independente de sua rotina, de lidar com a necessidade e a fraqueza de outro, de alguma forma. E hoje eu percebi que todos, como seres humanos, deviam usar a misericórdia para alguém além de si.

Ainda bem que alguns ainda teimam em se lembrar disso, ainda bem que alguém ainda é misericordioso debaixo de um sol escaldante, em uma sala de trabalho, numa quinta-feira de uma cidade, de um país, de um mundo que nem é tão misericordioso assim. E por isso eu tenho que agradecer.

Obs.esse post refere-se, originalmente, ao dia de ontem e só não foi publicado porque o blogger estava fora do ar.

alyson-fox-art

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