quarta-feira, 13 de abril de 2011

I don't expect you to understand. I never thought you could with a heart of stone and a brain made out of wood.

Eu tenho um divã no escritório. Coisa da minha mãe, ela comprou, não servia pro consultório dela, ficou pra mim.

A Shoyo e o Shinji usam mais o divã que qualquer outro morador dessa casa. Tem um divã lá em cima também, mas esse só a Shoyo usa, quer dizer, eu também uso pra deixar livros largados.

- Sua gata está preocupantemente revolucionária.
- Por que você tá falando isso, pai?
- Ué... Ela tava no divã lá de cima lendo "As veias abertas da América Latina".

Aí você vai ver ela tá dormindo com a cara enfiada no livro.

Depois do Shinji e da Shoyo, que dormem no divã, a pessoa que mais usa o divã sou eu. Vejo eles dormindo, sento ao lado e fico pensando em coisas aleatórias enquanto afago a barriga deles. E foi sentada ao lado da Shoyo, afagando a barriga dela que várias coisas que aconteceram hoje começaram a se encaixar.

Gatos, em geral, odeiam receber carinho na barriga. E a internet inteira sabe disso, já que não são raras as tirinhas que tocam nesse assunto. O problema é que a barriga, principalmente naquela parte mais pancinha, mais gostosa de fazer carinho, que tem os pelos mais fininhos e deliciosos, é uma região muito desprotegida no corpo dos felinos. É o único local em que eles têm órgãos vitais que não são protegidos por ossos, um ataque de predador ali e já era.

Quando eu sento no divã, a Shoyo nem abre os olhos, já vai virando a barrigona pro meu lado.

Uma palavra: Confiança.

Eu coloco a minha mão na Shoyo na confiança de que ela não vai arrancar um pedaço. Ela me oferece a barriga na confiança de que eu não vou arrancar um pedaço. Ambas ganham.

A maioria das pessoas, ultimamente, não se ligam muito nisso. Eu converso com um monte de gente e a reclamação é a mesma: amizades de longa data se desfazendo numa confiança traída. Milhões de maneiras diferentes de se fazer a mesma coisa. Das mais simples às mais graves. Como um amigo me disse outro dia, o dilema do prisioneiro parece explicar alguma coisa, mas não explica tudo.

"[...]Um exemplo de uma estratégia não retaliadora é a de "colaborar sempre". É uma escolha muito ruim, pois estratégias oportunistas ou maldosas irão explorar essa fraqueza sem piedade.[...]"

A diferença é que na vida, no dia a dia, ninguém tá indo pra cadeia, essas situações não envolvem ganhos reais. Oportunismo é uma justificativa que não se encaixaria em quase nenhum dos casos. O que sobra é a maldade.

Aí eu olho pra Shoyo e lembro de uma frase que eu escutei no filme que eu vi ontem, atribuída ao Nelson Mandela:
"Você não é amado porque você é bom, você é bom porque é amado."

Eu sinto pena. Por mais que tentem esconder essas coisas saltam aos olhos. Que essas pessoas não tem nenhum relacionamento verdadeiro com a família de origem, que os próprios pais nem fazem idéia de quem elas são. Irmãos, de sangue, que as esfaqueiam pelas costas, que vivem torcendo pra que elas se fodam, isso quando sequer notam que elas existem. Supostos amigos que não passam de conhecidos de longa data que, quando não são samambaias decorativas, ficam competindo pra ver quem tira a vantagem maior. E por aí vai, numa lista sem fim de sinais claros de que essas pessoas não foram amadas.

Elas são más. Essencialmente más.

Minha cota de persistir, de amar pessoas desse tipo, de ter minha confiança traida de novo, e de novo, e de novo, eu já enchi. Tenho uma pessoa dessas aqui em casa que já me dá trabalho o suficiente. Que já me machuca o suficiente. Que me faz sofrer o suficiente.

Não contem comigo.

Não é problema meu.

Poucos textos são tão milimetricamente o que a gente mesmo escreveria, se se pudesse ultrapassar o sentimento e se soubesse transmutá-lo às letras. Esse é da Lori, em seu Noites estreladas, orelhas mutiladas.

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