quinta-feira, 3 de março de 2011

O discurso do discurso

Estava lendo a crítica do Pablo Villaça, sobre 127 horas e ao final ele diz que esse filme se perde um pouco no que diz respeito à mensagem que ele possa passar ao espectador. Porque, definitivamente, a história do que realmente aconteceu a Aron Ralston * é registro de força, de perseverança, de superação, tanto no que se refere ao fato quanto às consequências dele.

Definitivamente isso não ocorre em O discurso do rei. A mensagem, a meu ver, é das mais claras, belas e necessárias.

Desde o primeiro momento do filme, o diretor Tom Hooper já nos anuncia o que será uma história particular e íntima, um relato próximo e ordinário, de uma figura para qual todas essas caracterizações não cabem em seu código de conduta e existência: o rei George VI.

O duque de York, que se tornaria o rei George VI era gago. Era membro da realeza, e tinha, por isso, privilégios numa escala que poucos no mundo podem sonhar em ter. Tinha, por isso, toda uma gama de devires e possibilidades que o poderiam ascender, promover ou desvirtuar. Só por existir teria uma imensa carga de complexidade em que se poderia debruçar, para se contar uma história. Mas o foco em O discurso do rei é somente em seu problema de fala. Obviamente, a fala de um rei no contexto em questão não é uma fala qualquer: é o apoio moral ao povo que aprendeu a servi-lo e é a comunicação de um posicionamento enquanto nação que está geografica e politicamente em meio à ameaça da guerra.


Mesmo assim, é no seu aspecto mais humano que a fala do rei será abordada no filme.

Claramente, Albert, o duque de York é uma pessoa tímida. Essa característica fica ainda mais pronunciada por alguns fatores: pelo papel que lhe é imposto, o de membro da realeza, que preza a discrição e correção e por sua história de vida, em que, desde cedo, precisa se haver com a situação de ter como apoio familiar, figuras cujos papéis políticos e sociais sobrepujam os familiares. (Aqui cabe lembra rapidamente um dos momentos mais tristes do filme, quando Lionel, o fonoaudiólogo, pergunta ao Duque Albert quais são suas memórias mais distantes de sua infância, e este lembra que uma babá o deixava dias sem comida, como reprimenda). Na hierarquia de sua família, não estaria, de imediato, destinado à reinar, função que caberia naturalmente ao seu irmão mais velho. Estava, portanto, acostumado às sombras do segundo plano. Ao trazer à tona a história de como Albert teria que se haver com sua dificuldade de falar pela necessidade, primeiramente, de representar a voz da nação e depois por tornar-se politicamente o responsável por essa função, como rei, Tom Hooper retira Albert do plano secundário, expondo-o como ele, definitivamente, nunca quis ou sempre evitou. E o faz não para que descubramos um rei, mas para que nos deparemos com a pessoa, o homem que existe na figura do monarca.

E assim, bem inicialmente no filme, vemos que não era somente a imagem e o posto institucionalizado que era aviltado por depender de outras pessoas em sua dificuldade, era o homem por trás desses. A história é bem mais do que um rei que precisa descer de seu trono para ser ajudado, é de um homem que precisa descer ao fundo de si para se superar. Ele depende de tudo que está fora dele para existir: precisa que o povo o reconheça como figura de confiança e responsabilidade, precisa de um médico que lhe ajude a superar sua gagueira.

Nesse sentido, Tom Hooper não mede nenhuma metáfora. Albert é abertamente pressionado ao confronto com sua dificuldade, seja publicamente, pela massa àvida de seus discursos, seja em âmbito familiar, quando é solicitado a contar histórias de dormir às suas filhas. Mas é quando ele vai ao encontro de Logue, que "trata distúrbios da fala" que o diretor vai, marcadamente, metaforizar o processo de confronto de Albert com a sua humanidade. E pra isso ele tem que descer. Factualmente. O consultório de Logue fica no subsolo e o elevador é estreito.


Mas o desconforto só começou. O rei é apresentado a si e à sua condição por um anteparo desmedidamente cru: na ante sala do consultório de Logue é recebido por uma criança, que também tem dificuldades para falar. O rei vai ter que se abaixar mais. Um vez no consultório, Logue anuncia "meu reino, minhas regras". Tal qual no Olimpo do reinado de Albert, porém às avessas dele, sem mobília, sem teto, sem beleza, sem cor, sem título. O rei vai ter que sair de cena, para que o homem possa chegar. O rei precisa do homem comum para ser rei. E para ser rei ele vai ter que ser homem. Vai pular, vai rolar no chão, vai dizer improprérios que um rei não deveria dizer. Vai, inclusive cinematograficamente, ficar no canto da tela, quando se confrontar consigo como rei que tem problemas e vai ficar em foco, quase sem o foco propriamente, quando for o rei obrigado por suas funções, agindo somente como figura emblemática, categórica, no momento em que está mais gritante a sua fragilidade humana.


Tom Hooper vai construindo sua mensagem, cena por cena, literalmente de baixo pra cima: o sedimento sobre o que se constrói o discurso de um rei e seu aceno ao público na sacada do palácio é o homem. O próprio e os milhões a que governa e de quem ele depende, de um jeito ou de outro.

O discurso do rei poderia ser um conto de fadas, mas felizmente, foi uma história real. Pontual, infelizmente. Mas a mensagem que deixa é bela e necessária, principalmente nos dias de hoje, tão carentes de valorização da vida daqueles que, desde muito, pavimentam os caminhos da história.

p.s A meu ver, são necessários apenas dez minutos de filme para comprovar que o Oscar de melhor ator não tinha outro destinatário, a não ser Colin Firth. É dele o reinado.


*Desculpem-me pelo link em inglês. O mesmo registro traduzido para português está incompleto.

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