quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Das boas coisas de o tempo passar

Uma das coisas mais bacanas da maturidade é que finalmente alcançamos lucidez em alguns campos da vida. E isso dá uma certo alívio, uma tranquilidade importante, apesar de parecer um tanto tedioso. Mas no fim das contas, é um estado de tranquilidade. Aquele estado típico em que a gente olha pra um tipo de comportamento com um risinho no canto da boca.
Se bem que acho que os homens demoram um pouco mais para ter esta lucidez.
Mas enfim, no campo do sexo, por exemplo.
Passamos a vida (ativa) toda às voltas com os mistérios do sexo. E sendo dia a dia compelidos por aquelas imagens de pessoas completamente no controle do seu próprio poder de sedução, irresistíveis ao sexo oposto. Pessoas sempre lindas, sempre dispostas a noites intermináveis de luxúria, paixão e... romance.
Nessa historinha que sempre nos contam, o sexo e o romance muitas vezes andam juntos, o que nem sempre é verdade. Mas fica mais bonito e muito mais simplista na embalagem.
E passamos muito do nosso tempo nas tentativas de nos tornar essa máquina atrativa, como se disso dependesse o alcance de nossa totalidade. Não que o sexo não seja importante, e muito menos que sexo não seja poder, é e dos maiores, se não o maior. Impérios, empresas e relações dos mais firmes são desfeitos não por causa de dinheiro ou poder, mas por causa do sexo.
Mas o ponto aqui é que esse sexo supervalorizado não é, de verdade, o fim que justifica todos os meios. Não é porque ele não existe, da forma perene que parece. E não o é, porque deixamos de praticá-lo de forma tão ostensiva. Não o é, porque ele não significa tudo isso.
Primeiro porque aquilo tudo que vimos - e ouvimos - não é verdade. Ninguém, de verdade, passa a noite toda, tendo nove ereções. Ninguém consegue estar apto fisicamente para nove ereções. Mas muito mais, ninguém vive de orgasmos sexuais, todo mundo vive de realidade, de cotidiano e de contingências.
E é aí que entra a maturidade. Um dia a gente percebe que o pacote sexo+romance tem um terceiro item: a realidade, o dia a dia, no caso. Um dia percebemos que queremos mais, queremos gozar por coisas mais. E de maneira nenhuma estou defendendo casa, carro e companhia.
Outro dia li algo do tipo, dei-me tanto que esqueci de como me dar, a mim. E isso é que faz toda diferença. Com a maturidade nos damos conta de que passamos um tempo longo focando o outro e não nós mesmos. Uns ainda se enganam num nível ainda mais emblemático, justificando-se de que o outro é importante pra si, por isso sempre estão com alguém. Mas no fundo, o outro torna-se o adendo de si em alguém, o que é igualmente enganador e acima de tudo, pérfido e ainda mais pobre.
Com a maturidade, descobrimos que o importante não é tanto se dar ou receber os outros, mas sim, se dar num contexto, qual seja ele, mais adequado à grandeza de que somos feitos. Claro, isso não necessariamente precisa significar relacionar-se durante tempos maiores, não é isso. Mas descobrimos, com o passar do tempo que dar é doar. E doar é de um departamento completamente inverso a esse de mágica sedução puramente. Doar é dar tudo com o que tudo tem, defeito, suor, lágrima, humor, ignorância, amor, medo e desejo.
Claro que precisamos passar pelas fases da vida, precisamos arriscar, descobrir, cometer nossos atos pensados ou impensados. Precisamos viver. Mas depois de tanto viver (esses módicos anos, ainda em aprendizado constante)como é bom, notar a diferença entre algo que pode valer a pena, e algo que no dia seguinte, só vai dar ressaca e silêncio o dia inteiro.

5 comentários:

Lori disse...

E isso tudo parece tão impossivelmente difícil pra mim....

Gi Novais disse...

texto bom de ler viu? parabéns!
Maturidade é bom sim...melhor ainda quando percebemos que estamos vivendo o tempo certo das coisas.

enquanto dá disse...

Simples, simples, não é mesmo, Loris :)

Obrigada Gi e concordo quanto ao viver o tempo das coisas...

Escafandrista disse...

Sem querer me gabar, eu consigo sim ter nove ereções por noite. O único problema é que elas só acontecem quando estou dormindo e acabam não sendo de muita utilidade.

Concordo com você. É muito bom quando sexo tem um porquê ou uma finalidade.

Parabéns pelo texto!

enquanto dá disse...

ahahahahahaha ah, Pedro só você mesmo!!