quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Senta aí, vamos tomar uma

Hoje eu me dei conta de uma coisa pra lá se simples: passar etapas é aceitar a morte. É abraçá-la, aceitá-la daquele jeito íntimo, próprio de cada um (o meu por exemplo, é dizer, numa mesa de bar "senta aí, vamo tomá uma").

Aí que as pessoas vêem o lado bonito mas é o lado bonito que vem junto com aceitar a morte. Chamam de passar pra frente, de amadurecer, de estar aberto. Mas é aceitar a morte e tudo que vem dela, coisas, que aliás são bem bacanas mesmo. Porque é um sinal de humildade diante da vida e de sua grandeza.

Porque você pode lutar contra você, contra as pessoas, contra o "sistema", mas lutar contra a morte requer uma força enorme, uma força que não é humana.

Ter um filho é aceitar a morte. Abraçar a pessoa que você será e dizer adeus a todas as pessoas que você poderia ter sido, se continuasse jovem e livre. Mas ninguém é jovem e livre pra sempre mesmo. Abraçar, chamar pra mesa e aceitar consigo aquela figura que já estava matando seus sonhos mesmo, pelas beiradas, de noite, enquanto você dormia e o tempo passava. Não se engane, estar acordado não faria diferença, ela não tem concorrentes no ramo, é muitíssimo eficiente.

Todo dia a gente acorda e se convence de que dá conta. Dá e não dá. Há sempre uma forma a ser descoberta, de nos provar ainda mais.

Tem gente que ou por estar tão absolutamente imerso no processo natural da vida ou por possuir a largueza de alma, tem seus filhos só com a alegria que isso significa. Já tem ou abraça a coragem que colocar outra pessoa no mundo significa, pra si, para o mundo, para ele.

Shakespeare já me tinha dito das alegrias e tristezas que pode haver entre tudo que desconheço. Machado de Assis, porém, também me disse que nossa cova com 11 amigos nos arrastam mais que todos os bailes e mistérios. E em Rosa, um resumo, talvez um alento:
O correr da vida embrulha tudo,
a vida é assim: esquenta e esfria,
aperta e daí afrouxa,
sossega e depois desinquieta.
O que ela quer da gente é coragem.
O que Deus quer é ver a gente
aprendendo a ser capaz
de ficar alegre a mais,
no meio da alegria,
e inda mais alegre
ainda no meio da tristeza!
A vida inventa!
A gente principia as coisas,
no não saber por que,
e desde aí perde o poder de continuação
porque a vida é mutirão de todos,
por todos remexida e temperada.
O mais importante e bonito, do mundo, é isto:
que as pessoas não estão sempre iguais,
ainda não foram terminadas,
mas que elas vão sempre mudando.
Afinam ou desafinam. Verdade maior.
Viver é muito perigoso; e não é não.
Nem sei explicar estas coisas.
Um sentir é o do sentente, mas outro é do sentidor."

A gente quer passar um rio a nado, e passa:
mas vai dar na outra banda é um ponto muito mais em baixo,
bem diverso do em que primeiro se pensou.
Viver nem não é muito perigoso?
Dói sempre na gente, alguma vez,
todo amor achável,
que algum dia se desprezou...
Qualquer amor já é um pouquinho de saúde,
um descanso na loucura."
(Fragmentos do livro "Grande sertão Veredas" Guimarães Rosa)



E desce mais uma, por favor, amigo.

3 comentários:

Ludmila disse...

Belo texto. concordo muito.

Russa Malvada disse...

fico feliz com cada sim... me emociono em vê-los chegando e transformando tudo. Coragem sempre teve, o não é q atrapalhava pq nunca combinava com vida. E só há vida.

Feliz ;)

Russa Malvada disse...
Este comentário foi removido pelo autor.