terça-feira, 23 de março de 2010

Olha ela alí

As pessoas erram quando têm medo da morte. Aquela morte, sempre súbita, sempre não esperada. A morte não chega um dia. Ela vai chegando, sempre, dia após dia. E não só pelos vestígios físicos no corpo.

A pior morte acontece a todo o momento, ao nosso redor. Nossas memórias morrem, os objetos dessas memórias também. Paulatinamente, o tempo atrás de nós vai se apagando... Vão levando nossos amigos, nossos ídolos, nossas referências.

Lembro de uma conversa que tive, em que me perguntaram por que eu tinha tanto medo de envelhecer e eu ainda digo: porque é muita morte junta. No fim, você sobrevive à sua história, às pessoas amadas. E essas histórias, como a maioria das pessoas, muitas vezes também já se acabaram.

Eu comecei a notar a roda do tempo pela TV, acreditem se quiser. Com a troca dos jornalistas, dos âncoras. É coisa que parece estranha, mas pensando bem, eu, por exemplo, cresci com o Sérgio Chapelin apresentando o Globo repórter (o que ainda acontece) e o Cid Moreira no Fantástico. Passei pela Glória Maria e hoje vejo aquele casal obtuso (enquanto casal, enquanto dupla) apresentando um programa cada vez mais conhecido como caronte do mar que nos separa do além, aquele lugar tenebroso, também conhecido como segunda-feira.

Meu pai me ensinou que a gente nunca deve tirar tudo de uma pessoa (ele é tão fofo, que fala isso pra tudo, pra terras, pros bichinhos, pras pessoas, pro mundo). Se você tirar uma coisa, deixe outra no lugar.

Então pense que quando você estava no útero, você não tinha a menor idéia de que havia um "lá fora". E lutou e chorou e se debateu quando teve que sair. E depois que saiu, fica aterrorizado com a possibilidade de um dia, morrer. Tem muita chance de ser a mesma coisa. Eu gosto da vida, mas tenho achado o mundo um lugar muito ruim. As pessoas riem menos (propagandas do que quer que seja não contam, sereados de TV também não). Tenho inclusive tido muitas dúvidas quanto a colocar um filho neste mundo. Esse mundo que extinguiu o a Croácia e que está matando o Afeganistão. Esse mundo que compra carro pra brigar com os outros e poluir o meio ambiente, jogando toneladas de gás carbônico no ar, vindos de milhares de carros e tem a hipocrisia de querer uma lei anti-fumo. Esse mundo que quer uma lei anti-fumo, mas leva o cão pra passear e cagar as calçadas de todos os outros que nem cachorro tem. Esse mundo que acha que macaco, passarinho e onça são acessórios, e podem ir, contanto que os automóveis não de vão.

Corey haim morreu há quase 15 dias.E eu acho uma tremenda falta de educação hoje, em BH, uma pessoa comprar MAIS UM automóvel pra entupir, três vezes por dia, todas as vias públicas da cidade.

Porque tudo, gente, é uma questão de lógica. Ou deveria ser. Não adianta não jogar papel na rua e fazer os empregados de burro de carga. Não adianta reciclar e colocar insufilme. A ecologia nunca foi, nem nunca será uma parte. Ela é um todo. Mas o outro erro, em que a gente se acomete, é o de acreditar que só a natureza é tem esse caráter de abrangência. O amor, o respeito e o caráter também têm. Não tem como ter caráter só aqui. Ou tem ou não tem. Amor, também. Ninguém ama 30%, ele existe ou não existe. Amor, respeito e caráter são processos que só acontecem completamente.

Por isso acho tão promíscuo esse jeito da classe média viver. E o mundo está muito classe média. Pregando a esquerda aqui, mudando-se para um condomínio fechado ali. Alimentando o gosto da justiça vendo um traficante ser preso, como se fosse o maior ato de compensação. Mas não se importando quando Fernando Collor de Mello consegue se eleger novamente, depois de cometer barbaridades, crimes, nos melhores e maiores termos.

Há coisa pior que morrer. Viver num mundo onde se apedrejam mulheres e as crianças são prostituídas, por exemplo. Porque, pessoal, é muito bonito ficar fazendo livrinho de auto-ajuda, mostrando a importância de se sorrir quando se acorda, mandando observar crianças sorrindo. Mas não faz sentido nenhum ficar tecendo um tanto de palavrinha enquanto mais um preto leva bala, enquanto dezenas de animais, nesse momento, são escalpelados vivos, pra manter nosso estilo de vida.

Pra mim, ficar apontando essa bela flor ali na janela, enquanto tudo apodrece, é muito mais do que alienação, é crueldade. Mas essa maldita classe média não se cansa de arranjar palha, pra construir seu universinho, como se o mundo não existisse e não fosse acabar em chamas (o cheiro de fumaça já há). Não é o caso de idolatrar o horror, mas é urgente que tomemos consciência de pra onde o mundo está indo. E isso definitivamente vem carregado de dor, de responsabilidade. Mas o mundo é esse aí, a vida é essa e a gravidade é pra baixo, quer queiramos quer não.

2 comentários:

Halem Souza disse...

Achei seu texto bacana, mas pergunto: por que certos setores da classe média ficam se corroendo com tanto sentimento de culpa? E isso, no fim das contas, vai levar a quê?

"Caráter"? Já ouvi falar disso... Acho que o último exemplar da espécie foi visto na primeira metade o século XIX, por um explorador inglês, num exótico país da África setentrional...

Siga iluminando nosso "universinho"...

Ah, e também tenho medo de envelhecer...

Um abraço.

enquanto dá disse...

Ei Halem, sempre bom, sempre bem-vindo! Rapaz, eu li em algum lugar sobre a postura servil do brasileiro e o autor apontava entre outras coisas, que o colonialismo tinha matado, antes de nascer, o nosso sentimento de classe. Seríamos um povo sem vínculos. No entanto, e isso dá outro post, na era da neuroloringuítica, a postura social (no sentido de dar importância ao outro) está meio que na moda. Misturando essas duas coisas, acho que esse sentimento tanto pode ser um eco do ser mesmo que cada um é, lá no fundinho, como pode ser apenar essa voz da moda, que repete somente. Se for desse último modo, acho que não leva a nada mesmo, já que é um ato vazio como sua fonte, né. Mas é uma boa discussão... :)