sexta-feira, 9 de outubro de 2009

E José viu o retrato

E quando José levou suas fichas coloridas no imenso prédio, ele percebeu. Quando se sentou, esperando a ordem de atendimento ele viu, como se tivessem por descuido, deixado cair o manto que cobria o retrato de Dorian. Aqueles sujeitos têm uma cara. They have that look. Especificamente aqueles com cargos burocráticos. Porque a burocracia sempre esteve fadada ao fim, sempre se soube, pois o homem é um ser de soluções... E assim que o rosto deixou-se ver, José pode ler a sua história. Ele, o funcionário da máquina, quando nasce - ou, toma posse- na infância do cargo, percebe que o serviço, quando há, é pouco e repetitivo. Então ele começa por se envergonhar de se dar ao ócio quando tantos têm trabalhos penosos, pesados, preocupantes e estressantes; com o tempo, porém, ele começa a perceber que os outros percebem o medo, a vergonha estampada neles por isso. Então começam a procurar algo em que possam se sobressair(claro, que não seja talento, já que a máuina não é reconhecida por elevar ninguém pelo talento); Então ele descobre que tem um poder: o de atravancar um processo por mínimo que seja. Está aí seu poder. Aí soma-se àquele medo disfarçado uma surda prepotência. É a adolescência do cargo. Nela vê-se o funcionário a locomover-se como se rumasse a um distino certo, mas nunca encontrado; A juventude inteira do cargo ele passa a almiscarar essa sua imagem de poder, treinando os jeitos, endurecendo a coluna, petrificando os hábitos e sobretudo aprendendo a nunca fixar seu olhar no olhar de outro (nunca se sabe quando o manto pode cair). Tudo para chegar à maturidade com aquela máscara que hoje vi: aquele queixo já duro de medo, disfarçado por aquele nariz acinzentado de prepotência assentada, aquela testa rôta assombreando um rosto pálido e poeirento, filho de um lugar perfeitamente protegido entre as pedras, mas sem sol, sem calor, úmido e bolorento, guardando em veludo verde um morto à espera da morte.

Nenhum comentário: