quarta-feira, 3 de junho de 2009

O quase enquanto

Nisso tudo, o que desaprovo, convicta, é que a cobertura de um acidente como esse último inclua até os que não embarcaram porque o pneu furou, sentiram um frio na espinha, porque deixaram o passaporte em casa, porque não tinham passagem mas tentaram loucamente e não conseguiram embarcar. E de repente as reportagens fazem com que essas pessoas participem da história e tenham algo a dizer sobre o que nunca existiu, que é sua própria morte. Ignorando que elas não são sobreviventes, nem vítimas, nem nada, a imprensa inventa um espaço simbolicamente intermediário de experiência da morte e do trágico e, assim, fere o luto daqueles que de fato perderam pessoas amadas e que estão sofrendo.

Eu senti revolta por um outro fator muito parecido com este (que rendeu muito e-mail com os amigos). A respeito de uma matéria sobre o fato começar com:
"Eu te amo" ou "Estou com medo" foram algumas das mensagens de telemóvel que os passageiros do avião da Air France desaparecido enviaram aos seus familiares quando se aperceberam que a aeronave estava com problemas."
Revolta, porque eu duvido muito que 1) as pessoas tenham se apercebido que iam EFETIVAMENTE morrer e 2) que as pessoas tenham EFETIVAMENTE encontrado forças para numa suposta turbulência/queda DIGITAREM uma mensagem sms. Mas minto, minha revolta maior foi que a matéria tenha começado assim. É, paralelamente, um canto quase lírico de Susan Boyle jornalístico, parido para emocionar incautos.

Obviamente, um fator menor que o levantado acima e que vale a leitura atenta.

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