quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

Não é bebendo leite


Acabei de ler o "Mate-me por favor (vol. 1)" de Legs McNeil e Gillian McCain(2007). É um livro que conta a história do punk rock, através de um recurso totalmente punk: tudo se constrói através da transcrição de depoimentos curtos das pessoas mais famosas ou, parafraseando o livro, das figuras mais "cool" que permearam o movimento, desde a cena novaiorquina dos anos 60. Dezenas de personalidades narram a seu modo toda a cena do movimento mais libertador do universo do rock desde Chuck Berry. E como o próprio movimento, vamos vendo descerrar-se a cortina da libertinagem, da genialidade, da espetacularidade, do verdadeiro carpe diem que caracteriza não o rock de propaganda de hoje em dia, mas o bom, velho e sujo rock n´roll.
São todos lendários: Andy Warhol, Lou Reed, Joe Ramone, Patti Smith, John Cage, David Bowie. São todos relatos absolutamente embebidos daquela casualidade selvagem de quem viveu o rock como ninguém, numa das épocas mais efervescentes e alucinantes de todos os tempos. Num determinado momento, um pensamento ocorre no livro, quase en passant: será possível ser um gênio do rock sem fatalmente beber da fonte do sexo e das drogas?
Eu acho que não. E por causa de um cara só, no meio de tantas celebridades até mais citadas, seja lá porque: James Newell Osterberg. Ou, Iggy Pop.
Eu vou chamá-lo James. Vou, porque Iggy era tudo, menos Pop. Ele era heavy. Heavy e soft ao mesmo tempo. E pelo motivo: pelo menos pelo livro, foi ele, quem mais viveu, com todos os ossos e veias, o punk rock. Se todos se drogaram ele se intoxicou. Se todos exageraram ele se absurdou por completo. Se todos não estavam nem aí, ele nem estava. Ele foi tanto, que foi. Ele se deu ao rock. Porque ele não teve escolha. Porque ele ERA o rock, ele era o punk, como ninguém mais, antes mesmo do punk ser chamado assim.
Porque o rock não dá pra fazer pela metade. E se você entra, se perde, perde a porta da volta e abre todas as portas, do corpo e da alma, abre o nariz, as veias, as papilas pro que quer que seja que te leve pra fora daqui. Pra fora de si. Não tem boa vontade, meio termo, empatia, sutileza, parcimônia, seriedade, bom mocismo. É feio, podre, fétido, marginal. E assim que é bom. Porque de outra forma, pode chamar do que for, mas não será rock.
E no fim, depois de Iggy, todo mundo ficou parecendo um bando de criança brincando de personagem. Ele é e sempre será a maior metáfora encarnada do próprio rock, essa viúva negra que cativa, sodomiza e engole o objeto do seu desejo e o seu próprio desejo.

Um comentário:

Ludmila disse...

Ai, ai, adoro o Iggy. :)