domingo, 11 de maio de 2008

Lost in translation

Eu concordo com o fato de que o não dito é infinito. Ele dura para sempre, porque na nossa imaginação ele é criado e recriado. Como em Dom Casmurro, de Machado de Assis, que a gente pode ler dezenas de vezes sem jamais descobrir a verdade sobre Bento, Capitu e Escobar. Clarice Lispector também dizia que "Entender é sempre limitado. Mas não entender pode não ter fronteiras." E esse é o caso do filme de Sofia Coppola. Há um quê de individualíssimo no discurso dela em Lost em translation (Encontros e desencontros, 2003). É essa a metalinguística do filme: ao retratar a solidão da personagem de Scarlet Johansson o filme diz que cada um vive uma história pessoal porque cada um tem mesmo a sua dor, e principalmente porque a solidão é sempre um sentimento de um só, por mais que unamos todos os que assim se sentem.

Há um tempo atrás circulou na Internet um vídeo com o som do que foi dito pelo personagem de Bill Murray a personagem de Scarlet Johansson, não audível no filme. Achei a coisa mais importante aquilo. Vencia de novo a tecnologia, vingava nós todos, surdos que ficamos diante da edição da Sofia Coppola. Aí hoje eu achei o papelzinho escrito:

"I have to be leaving, but i won´t let that come between us, ok?"

Dizem que o que a gente não escuta mas eles dizem é isso. Eu concordo que o não dito é infinito. Mas eu descobri agora, ao ler essa frase, que saber o que foi dito, sendo a verdade ou não, é muito menor do que a questão que a obra coloca. Talvez a Sofia soubesse disso, talvez não. Mas o que importa, mesmo, é que não importa.

Um comentário:

Kenji disse...

já dizia sabiamente o polim que o mal dos filmes amelecanos é que tudo tem que ter uma explicação, nada pode ser implícito ou subjetivo

para ofender o hohmer simpson, basta deixar algo no ar.