segunda-feira, 12 de novembro de 2007

Chico Science



“Tredwell desapareceu. O argumento de quão errado ou quão certo ele estava desaparece ao fundo numa névoa. O que resta são suas imagens. E enquanto nós assistimos os animais nas suas alegrias do cotidiano, à sua graça, à sua agressividade um pensamento torna-se cada vez mais claro. Que não é tanto um olhar para a natureza selvagem, mas sim um olhar para nós mesmos, a nossa natureza. E que para mim, através da sua missão, dá significado à sua vida e à sua morte.”

Assim, Herzog termina Grizzly Man (2005). O filme tem todas as características de um documentário, mas, sob a ótica de Herzog, o que se vê é um retrato poético, original e questionador sobre a busca do homem por si mesmo. Tredwell vai estar com os ursos, na ponta do mundo, para sem saber, tentar se encontrar. E Herzog, didático e consciente, vai reinventando o meio, e documenta essa jornada rumo a muito mais que somente o registro.

Por aquelas coincidências gentis e felizes eu estava lendo a Lori e logo após revi trechos de Grizzly Man. E aí pensei coisas muitas, demais para caber num comentário, mas adequadas pra colocar num blog.

O conhecimento científico é por vezes pedante, outras vezes necessário, muitas vezes mais propulsor de reflexões e discussões do que tranqüilizador, se tomado como fonte de certezas. Tredwell não tinha conhecimento científico sobre a empreitada que pretendia fazer. Não era biólogo, veterinário, muito menos filósofo ou antropólogo. Sua falta de (in) formação resultou em anos de solidão consentida e admirada, talvez tempos usufruídos com prazer, mas também em sua morte e de sua companheira. Mas resultou também, por outro lado, em uma obra prima nas mãos de um cineasta.

A meu ver isso não é só um exemplo do equilíbrio natural ou das leis de compensação do universo, como pode parecer. Não sou cientista, mas arrisco a dizer, com algum pouco conhecimento, que a ciência também se faz através de algo muito comum e simples: a observação. A ciência advém de uma necessidade humana pela identificação e compreensão daquilo que o rodeia. Logicamente, a ciência especializa-se em fundamentar conhecimentos que às vezes não são palpáveis à maioria de nós. Mas arrisco dizer que deve chegar até nós, de alguma forma, resultados dos estudos de Grigori "Grisha" Perelman, que desvendou a conjectura de Poincaré. Porque o conhecimento, em qualquer instância, não é um fim, mas um constante re-produtor da nossa condição humana. Com Tredwell aprendemos que mesmo que a solidão em meio aos homens seja absurda, há sérios riscos em se conseguir afirmação em meio a ursos selvagens. Mas com Herzog, aprendemos que Tredwell é como qualquer um de nós que querendo ir a São Paulo, passa antes pelo Maranhão, com a certeza de que corta caminho e ainda por cima, de que faz a coisa certa.

Utilizar-se e valer-se do conhecimento científico varia com o tempo. Entender que a Terra era plana e o centro do Universo fez com que o homem se voltasse para Deus. Descobrir o sol fez com que ele se abrisse à dúvida e, na descoberta de sua pequenez, desse atenção à sua carne, pois Deus, num mundo tão vasto haveria de ter muito mais coisas para vigiar, que não somente os interiores humanos. O conhecimento criou a bomba, mas erradicou a Peste.

E hoje o conhecimento também pode ser usado como ferramenta para a nossa agregação ou segregação ou para a confirmação de nós mesmos, através de nossas convicções. Mas cabe lembrar, que se isso acontece , é porque talvez estejamos colocando NA ciência alguma de nossas ansiedades, esperanças ou medos. Porque “achar”, “gostar” não são mesmo palavras ou identificadores científicos. Mas até para “achar” e “gostar” precisamos estar assentados em algumas convicções, alguns parâmetros, alguns fatos que sim, a ciência nos deu. Graças a ela eu não saio por aí pregando a crença de que “panos sujos no canto da sala ´produzem ratos`.” Graças a ela eu evito os aglomerados de carbono pra não engordar. Sabendo, também graças a ela, que sem nenhum aglomerado de carbono eu também não vivo. Isso não me impede de tentar viver de luz, nem de comer rosas, mas me poupa um caminho, quando eu resolver tentar um desses. Porque cientificamente, percebemos, através de Tredwell, que somos livres, mas que a convicção sem o conhecimento, pode até nos dar a sensação de certeza, mas não nos deixa imunes às conseqüências daquilo que já está estabelecido.

É como dizia o grande Chico (que dá título ao post):
"E com o bucho mais cheio comecei a pensar
Que eu me organizando posso desorganizar
Que eu desorganizando posso me organizar
Da lama ao caos
Do caos à lama
Um homem roubado nunca se engana"

Um comentário:

Halem Souza (Quelemém) disse...

Interessado que sou nas várias modalidades da linguagem verbal, de vez em quando costumo dizer que o conhecimento científico é também um discurso, indubitavelmente, dos mais poderosos da atualidade. E que na minha opinião, se é um dos poucos que consegue escapar dos fundamentalismos religiosos, não consegue por sua fugir da sedução do capitalismo mais selvagem e injusto. Um abraço.