sexta-feira, 19 de outubro de 2007

Licença para ser mãe



Quadro de Frederick Leighton (Valeu, Lori!)

SÃO PAULO - O Projeto de Lei 281 de 2005, da senadora Patrícia Saboya (PDT), que amplia a licença-maternidade de quatro para seis meses foi aprovada, nesta quinta-feira, 18, na Comissão de Direitos Humanos (CDH) do Senado em caráter terminativo e segue diretamente para a Câmara dos Deputados. No entanto, para ter direito a mais dois meses de licença, a empresa para qual a mulher trabalha precisa aderir ao programa Empresa Cidadã.
Fonte

Uma vez, conversando com a Lud sobre a condição da mulher moderna, chegamos à uma conclusão um pouco triste: as mulheres conseguiram com tanto profissionalismo a sua independência, que os homens, no geral simplistas, entenderam (ou acharam por bem considerarem) que elas não careciam mais da gentileza, do cavalheirismo e da sensibilidade no tratamento.
Longe de não aceitar e festejar a (quase) conquista dos seis meses de licença-maternidade, acho ótimo, ainda que tarde. Mas essa decisão ainda parece trazer consigo um pouco desse entendimento masculino acerca das questões femininas.

Porque dado o caráter extremamente competitivo de nossas empresas, acho muito difícil que elas cheguem a aderir ao programa Empresa Cidadã. Mesmo porque a cidadania dessas empresas não se sensibilizou por questões bem mais antigas, como pagamento de horas extras ou de um Plano de saúde, creches sustentadas etc.

Lembro ainda de um professor de Psicanálise que disse que numa perspectiva de entendimento das diferenças entre os gêneros, as férias anuais eram um identificador genuinamente masculino. Porque as mulheres tem ciclos mensais. Obviamente não estou panfletando isso à risca. Mas hoje a mulher inserida no contexto do mercado, joga com as leis masculinas. Ela não pode se emocionar, não pode ficar histérica, não pode usar a intuição, deve sempre rebaixar seu lado emocional em pró do lado racional. Também não vou defender a DR* na empresa. Mas muito daquilo que caracteriza o gênero feminino foi posto de lado, foi renegado. Então até hoje, todas as mulheres do mundo tinham filhos, e suas filhas tinhas filhos e todas os criavam e, modernamente, ainda competiam de igual para igual - com razão, competência, iniciativa, criatividade, persistência e coragem - no mercado profissional. Muitas ainda até hoje, menos remuneradas que seus pares masculinos. Sempre se exigiu que elas fossem o esteio da educação, da formação individual, religiosa e moral de seus filhos. Mas nunca, nunca, tiveram exigidos os seus direitos femininos, desde a minúncia da compreensão frente a antiga e indelével, apesar do tempo e da tecnologia,TPM até a inegável e incontestável necessidade de repouso, recuperação e usufruto emocional e biológico decorrentes da gravidez. Arrisco dizer que muitas mulheres tiveram restrito o seu inicial prazer materno por medo, ansiedade ou preocupação com a perda de um emprego , mesmo quando em licença-maternidade. Porque a partir de então, elas, além de trabalhadoras, esposas e donas de casa, agora seriam mães, e essa incumbência não poderia, nem seria admitida, como passível de ser delegada.

Porque os filhos, como indivíduos, seres humanos, não são tarefas, não são projetos e a formação deles não está restrita ao período delimitado pela CLT. Os filhos ainda precisam daquelas coisas emocionais, tão execradas no ambiente empresarial: eles precisam de colo, de carinho, de calor, de brincadeira, de acompanhamento, eles carecem do olhar condescendente ou orientador da mãe. E as mães carecem de dar essas coisas renegadas a eles, pois elas podem até fazer Gestão estratégica financeira, mas gerir mesmo, criar no sentido de dar a vida, elas só podem a outro ser humano. Porque ninguém mais pare, além da fêmea, isso só ela pode fazer. E ninguém vem ao mundo sem ela.

Não seria então, a coisa mais lógica do mundo dar a esse caso único na natureza, um tratamento único e totalmente garantido?

(DR* = coloquialmente, a Discussão da Relação, ou o que se chama também vulgarmente de "as mulheres querem discutir tudo o tempo todo, só pra falar.)

5 comentários:

Anônimo disse...

Maravilha de texto Rosi!
Sempre considerei que a mulher não precisa deixar de ser mulher ao ser mãe, o que não quer dizer que seja uma tarefa fácil! Seu texto exprime de forma sublime nossa condição "única" e retrata com dignidade nossa insistência! "É preciso ter força, é preciso ter graça...sempre"!
Valéria Paiva

Lori disse...

A pintura é do Frederick Leighton achei esse quadro dele a cara da Lud!!!

enquanto dá disse...

Obrigadíssimo, Lori, que não é a Lorilay mas que tem muito pra sê-la :)

Ludmila disse...

Rosi, concordo com tudo que voc� falou! Tudo! Tenho uma colega de servi�o gr�vida e ela j� come�a a perceber as dificuldades de adaptar o dia-a-dia profissional com a atual condi�o, pois � pressionada a se comportar "como sempre foi" e ela precisa virar e dizer "olha, desculpa a� mas agora eu n�o posso me matar, me dedicar fora do meu hor�rio, comer qualquer bobagem... No momento, a minha prioridade � outra". Fala isso pro seu chefe pra ver a cara dele, fala?
Lori, adorei a pintura, � minha cara mesmo. :-)

Clarice disse...

que lindo o leiaute novo! :)