segunda-feira, 21 de maio de 2007

É a Hilda Hilst!

Meu saudosíssimo professor de psicanálise, numa pós que fiz há um tempo atrás, dizia que os loucos – estado extremo de uma condição humana presente em todos – jamais escolhem como pai o porteiro zé. É sempre Napoleão, Super Homem, Mussolini. Todos nós em algum momento matamos nossos verdadeiros pais e elegemos um que é mais a nossa cara, que condiz com toda a nossa “supremacia Bourne”. Fato é que esse pai é eleito em segredo. Todos sabem que o eu de cada um é um silfide de marfim, a perfeição de todo o universo amém, mas daí a demonstrar toda a sua onipotência para outrem, é deixar a si exposto demais à pilhéria social.
Pois bem, eu não sei se existe publicada a teoria a seguir, mas servindo-me de um artifício da psicanálise- a fala – vou ao mesmo tempo, apresentar a gestalt e tentar fechá-la. E no finalzinho ainda tem um dedinho em riste, pra fechar a historinha bem no feitio de quem tenta por anos nos fazer acreditar nela. Mas claro, vou usar uma metaforazinha.
No caminho para se encontrar, no meio da feira de domingo que é a vida, o tomate-pai, o abacaxi rei, uma coisa que a gente aprende é que somos científicos em nosso método. Como as corujinhas, a gente vai experimentando até identificar e isolar nosso papai. Mas, também como as corujinhas, um dia a gente vai perceber que aquele “indivíduo” não é na verdade tudo aquilo que a gente imaginava. E, mais importante, não é aquilo que a gente quer.
E aí vem a primeira grande descoberta: a gente faz isso incontáveis vezes até encontrar um pai... e uma mãe. A gente encontra a paternidade geral. A gente encontra e elege a nossa ascendência.
Só que, é claro, tal como os meninos perdidos encontrados pelo Domingo Legal, tem sempre gente se declarando autarquicamente pais e mães de alguém. Inclusive nossos pais biológicos. E aí vem a segunda grande descoberta: quando você se elege pai ou mãe de alguém está desconsiderando a possibilidade de que haja no mundo seres únicos, construídos e constituídos de diversas experiências paternais. Nesse sentido, a tentativa de afirmação de uma paternidade é uma última tentativa do existir de cada um e refletem na verdade, a incapacidade que temos em admitir que todos têm seus valores próprios e a incapacidade que temos de nos aceitarmos enquanto indivíduos únicos e sós.

6 comentários:

Halem Souza (Quelemém) disse...

E se a gente demorar muito pra encontrar esse pai eleito (ou mãe eleita, se for o caso)? Tem muito problema?

Pai, - pelo menos isso eu tenho certeza - não quero ser de ninnguém.

Um abraço.

Ludmila disse...

É, porque é uma via de mão dupla, né? O grau de narcisismo que envole essa coisa de ter filho de ser pai ou mãe, é um trem que pais e mães detestam falar, mas o Freud adorava. Aliás o Freud era meio safado... :)

enquanto dá disse...

Halem, nem sempre essas coisas são sólidas na mente, sabe. Às vezes você até já fez essa escolha, o que é muito provável. Mas se não acha, procura nos outros e aí estende um processo que deveria ter durado 3 anos somente :)

E claro, o narcisismo é o doce mais apreciado de Freud e acho que existe muito dele em todas as relações principalmente entre pais e filhos...

Lori disse...

Acho que não entendi nada.... Tá, amanhã eu releio com menos sono...

Escafandrista disse...

Eu estava lendo e achei que você tinha eleito a Hilda Hilst como sua mãe. :))

enquanto dá disse...

Mas elegi mesmo :DDD Pelo menos alguém entendeu!