sexta-feira, 20 de abril de 2007

Do sertão

Uma das coisas mais bonitas que eu acho é a de encontrar gente que fala as coisas de uns e que na verdade fala de outros e de todo mundo. Uma grande obra talvez contemple a humanidade através de seus personagens.
A gente sempre acha que já viveu o suficiente para contemplar essa humanidade e do alto de nossa experiência, dissertar sobre a organização do mundo. Do alto da minha cabeça eu vivi muito e com muita gente e percebi que as coisas não variam muito.

"Homem? É coisa que treme. Cada hora, de cada dia, a gente aprende uma qualidade nova de medo!"

O que há em todos é o desejo e o medo. Em qualquer circunstância, objetiva e subjetivamente.O que há em todos é a fé, com ou sem Deus. E a fé existe porque há o medo da solidão.

"Digo ao senhor: o diabo não existe, não há, e a ele eu vendi a alma. Meu medo é esse. A quem vendi? Medo meu é esse, meu senhor: então, a alma, a gente vende, só, é sem nenhum comprador."

"Que isso foi o que sempre me invocou, o senhor sabe: eu careço de que o bom seja bom e o ruim ruim, que dum lado esteja o preto e do outro o branco, que o feio fique bem apartado do bonito e a alegria longe da tristeza! Quero os todos pastos demarcados... Como é que posso com este mundo? Este mundo é muito misturado."

Sábio também é meu pai, matuto do sertão menos bravo mas nem por isso menos professor:
"Gente qualquer tem pra todo lado. Agora amigo, amigo, minha filha, a gente leva 30 anos pra construir."

Emendo: é preciso, inclusive, ser amigo de si mesmo.

2 comentários:

Kenji disse...

por isso que naquelas coleções de antigamente, os clássicos eram "universais" :-)

a universalidade geralmente é uma das qualidades de uma obra-prima

Escafandrista disse...

Ai, ai, tudo isso é tão bonito que até dói.