sexta-feira, 19 de janeiro de 2007

Enquanto dá



Não sei exatamente porque, mas as pessoas estão perdendo a espontaneidade típica de pessoas que se conhecem e se gostam.
Há uns cinco anos atrás, eu morava num bairro de periferia bem afastado. Lá as crianças jogavam bola na rua, soltavam pipa e ainda iam à escola. A gente não precisava arrumar para ir à padaria, ia de havaianas. Telefone público, só na farmácia.
Não sei por esse pretenso clima de descompromisso, era normal receber a visita de um amigo ou conhecido sem aviso prévio. Tocava a campainha e a mãe gritava "É o fulano minha filha! Pode subir, fulano, ela está lá na sala". E quase nunca havia um interesse oculto nessa visita. Ia pra falar de tudo e de coisa nenhuma, iam pra tomar café. E também havia aquelas visitas de domingo que chegavam pra almoçar. O aviso acordado nesse caso era chegar cedo, antes de começarem os preparativos para o almoço, já que teríamos que aumentar os pratos. E as visitas iam embora à tardinha, "em tempo de pegar o ônibus ainda vazio".
Hoje, não sei se pelo fato de haver violência nas ruas, trânsito intermitente ou acúmulo de compromissos ou tarefas, simplesmente é quase impossível visitar alguém do modo antigo. Há os que pedem até uma semana de antecedência para receber a visita. Há os que preferem um encontro fora de casa. Há os que só se falam e se abraçam via telefone, e-mail ou cartão comemorativo. Há os que não se vêem.
Agradeço muito, enormemente por ainda haver pessoas que nos visitam, nos recebem e que ainda nos enviam mensagens desejando as coisas mais lindas:

Uma ocasião,
meu pai pintou a casa toda
de alaranjado brilhante.
Por muito tempo moramos numa casa,
como ele mesmo dizia,
constantemente amanhecendo.

(Adélia Prado)


Porque é preciso receber e pra isso é a casa. A casa de pedra e a casa de nós mesmos.

4 comentários:

Ludmila disse...

ai, eu também tenho saudade disso. Acho que o mundo não comporta mais tamanho desapego... (tanto de quem vai quanto de quem recebe). Lembrei do meu tio Zé que chegava sem avisar lá em casa no Barreiro com a família inteira (+ 4, além dele) com uma panela de pressão cheia de feijoada! :-)

:: She said :: disse...

aaaaaaaaooooooooooon! Deu até apertin do coracao de tanto q lembrei disso tudo!

Rovi: vofê é minha parede laranza!

ooooooooonnn!

hihihihi ;)

Anônimo disse...

piora mais que isso ainda

chama urbanização ;-)

(Kenji)

Anônimo disse...

deixa eu ver: este blog está amanhecendo ou é um legítimo tangerine dream ou uma laranja mecânica ;-)

ou a seleção de futebol da holanda ;-)

(Kenji)